Opinião de António Ferreira: O abandono do interior é apenas o princípio

Escrito por António Ferreira

A VASP é a única empresa que assegura a distribuição de jornais e revistas no território nacional. Acaba de anunciar a intenção de cessar a atividade em nove distritos do interior, e entre eles no distrito da Guarda. Numa lógica de mercado, a decisão entende-se. Porquê percorrer centenas de quilómetros para deixar meia dúzia de jornais em Figueira de Castelo Rodrigo ou Manteigas? Nem se paga o gasóleo, quanto mais as outras despesas, e não há a mínima expetativa de lucro.
Bem vistas as coisas, e considerando as tiragens, a decisão ainda faz mais sentido. O “Correio da Manhã”, que há vinte anos vendia mais de 120.000 jornais por dia, vende hoje um quarto disso; o “Público”, embora tenha aumentado substancialmente o número de assinantes digitais, vende hoje menos de 10.000 jornais por dia em banca; o “Diário de Notícias” tem apenas assinaturas digitais; o “Expresso” vende pouco mais de 30.000 jornais por semana. Agora façam-se as contas: se a maior parte das vendas vai para o litoral, porquê insistir no interior?
Desde o longínquo dia em que comecei a comprar jornais, já vi desaparecerem das bancas um sem-número de títulos: “A Capital”, “O Comércio do Porto”, “O Ponto”, “A República”, “O Diário Popular”, “O Jornal” e muitos outros. A internet tornou-se hoje a principal fonte de informação de muitos e isso só é mau se pensarmos que essa informação não vem de publicações online, para que migraram os principais jornais, mas sim das redes sociais. Nestas, aparecem “notícias”, ou textos em forma de notícia, de fontes dificilmente verificáveis e muitas vezes descaradamente falsas. O Facebook e o X (ex-Twitter) deixaram de fazer verificação de factos e de bloquear, em nome da liberdade de expressão, quem publica notícias falsas. É, aliás, esse o truque da extrema-direita moderna, que procura transformar os factos em opinião, e vice-versa, declarando que se tem direito «aos próprios factos». Por isso se transformou um canal de informação, como a Fox News, num veículo de propaganda sem qualquer vinculação com a verdade.
Regressemos aos jornais e aos jornalistas. Estes têm um código deontológico e seguem as regras da profissão. Protegem as fontes, ouvem as várias partes de um conflito, têm um compromisso com a verdade e, quando se enganam, publicam desmentidos. As redes sociais não, limitam-se a ser um veículo gratuito para mentiras e vigarices. Foi com essas mentiras que Trump ganhou e que o Brexit foi aprovado, para mal dos Estados Unidos, da Inglaterra e de todos nós. Foram esses milhões de eleitores, enganados por mentiras divulgadas através das redes sociais, sem acesso a jornais credíveis, ou sem o hábito de os ler, que alteraram as regras do jogo.
Os melhores jornais do mundo sofrem com a crise da imprensa diária e com a alteração dos hábitos dos consumidores. Um a um, fecham e, enquanto não fecham, veem estreitar-se o horizonte de leitores que atingem. As mentiras das redes sociais não sofrem contraditório útil, mas atingem cada vez mais gente. A falta de acesso a uma imprensa responsável e honesta torna os eleitores cada vez mais vulneráveis à mentira.
Sobram as televisões, mas aprofundam muito pouco os temas e reduzem-nos a meia dúzia de notícias de mais impacto.
Isto é muito mau, mas sabem o que é pior? É que o fim da distribuição de jornais nos distritos do interior vai, no fundo, afetar muito poucos. Assim como nos vão um dia fechar as maternidades por falta de nascimentos, também vão cortar-nos o acesso aos jornais por falta de quem os leia.

Sobre o autor

António Ferreira

Deixe comentário