Os sinais são muitos e cada vez mais visíveis. Os ideais progressistas foram ultrapassados pelo passado e são agora repudiados por cada vez mais pessoas, instituições, órgãos de comunicação social e partidos. Os Estados Unidos da América foram pioneiros do fenómeno e exportam-no para todo o mundo, como antes exportaram a Coca-Cola. Chocou-me, há uns anos, ver como a bandeira da confederação se tornou símbolo identitário da extrema-direita americana, apesar de ser apenas a bandeira dos estados do Sul que quiseram a guerra por não aceitarem o fim do esclavagismo. Interrogava-me sobre se haveria alguma coisa que a tornasse estimável apesar disso, mas não encontrei nada.
Outras coisas me chocaram e continuam a chocar. O combate contra o discurso politicamente correto, que, no fundo, apenas pretende ser inclusivo e evitar que a partir da linguagem se mantenham e propaguem ódios e segregações, esse combate, que teria lógica e faria sentido para evitar extremismos, acabou por ser um combate contra o fim da xenofobia, pelo regresso em força do racismo, pelo repúdio dos direitos das mulheres e das minorias. Esse combate continuou depois contra o chamado “wokismo”, em si um exagero desnecessário, mas que a direita, e já não apenas a extrema-direita, exagera também no seu significado e acha hoje ser a representação de todos os males do mundo.
O bom velho centro, entretanto, perdeu relevância e arrisca-se a desaparecer no meio da guerra cultural em curso. E é, contudo, a ele que devemos o melhor da nossa civilização e os direitos que pensávamos adquiridos para sempre: o primado da lei, o respeito pelos direitos humanos, a democracia, a segurança social, a escola e os cuidados de saúde universais.
Essa direita, desses valores guarda hoje como valor absoluto o da liberdade de expressão, mas apenas porque lhe permite mentir e insultar impunemente. Tudo passou a ser opinião defensável e todas as opiniões contrárias àquilo em que acreditam podem ser vilipendiadas e ridicularizadas. Como são mais ativos na sua disseminação, inundam o espaço público e as redes sociais. Foi assim que ganharam as eleições de 2016 nos Estados Unidos, com a chegada de Trump ao poder, e foi assim que forçaram a saída do Reino Unido da União Europeia, sempre à boleia de mentiras e graças ao espírito simplório e influenciável dos seus seguidores. Clinton percebeu e correu-lhe mal: quando, por uma vez, não foi politicamente correta e chamou os bois pelos nomes, insinuando que os adeptos de Trump não passavam de um bando de cretinos, caiu-lhe o mundo em cima, incluindo o seu. Tinha razão, mas esse discurso só era legítimo se fosse proferido pelo outro lado.
Em Portugal, vamos pelo mesmo caminho. O Chega representa já um terço do eleitorado. O PSD adotou as bandeiras do Chega e o seu discurso anti-imigração e xenófobo. Pensa, como a direita em geral, que o progresso económico se obtém à custa dos direitos dos trabalhadores (como se a célebre produtividade do trabalho não dependesse, em primeiro lugar, da boa gestão das empresas) e que a prioridade da governação deve ser o combate às ideias da esquerda, como se fosse hoje uma espécie de Bloco de Esquerda ao contrário.
Depois de muitas décadas a conquistar direitos para se conseguir um mundo melhor, vamos agora ver esse mundo desmoronar-se, a troco de não se sabe bem do quê, mas o cheiro a ranço começa a ser insuportável. A reação passou.



