Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jeróniomo: Quatro anos

Escrevo à noite de 23 de Fevereiro, mesmo dia e mesma hora que, há quatro anos, falava ao telefone com pessoas de Odesa e Kyiv, com conversas em que nenhum de nós acreditava que horas depois iria acontecer o que realmente aconteceu.
Era um misto de anseio ingénuo com incredulidade idiota. Normal e inofensivo para quem via os movimentos do sofá, estúpido e perigoso se fossem líderes das maiores potências mundiais. Todos queríamos que a Rússia não invadisse o resto da Ucrânia como já ocupara a Crimeia e desestabilizara parte do Donbass. Mas quem poderia ter ajudado a evitar a invasão ou a reverter a ocupação não esteve para isso. Depois foi tarde.
Quatro anos de ocupação e bombardeamentos. De torturas, de violações, de raptos. De apartamentos, hospitais, escolas, destruídos sem razão. Quatro anos de alarmes de ataques nocturnos a apitar na mesinha de cabeceira. Quatro anos de vídeos no Telegram com as zonas destruídas em Odesa, Kyiv, Dnipro, Zaporizhzhya. Quatro anos de preocupação diárias com quem ficou. “Como estás?” “Normal.” Normal chega. Mesmo quando normal é: sem água, sem luz, sem aquecimento. Mas vivos. E sem russos.
Quatro anos de ocupação russa do Leste e Sudeste da Ucrânia. Quatro anos de propaganda russa em jornais e televisões de Portugal. Que os ucranianos não querem a paz. (A paz dos putinistas é a subjugação ao imperialismo russo e a extinção da identidade ucraniana). Que o Zelensky é teimoso. (Muito incomoda os kremlinistas que o presidente cumprisse o seu juramento – defender a Ucrânia, a sua Constituição, a integridade do território. E que ficasse em Kyiv para que o vazio de poder fosse ocupado por um novo Yanukovich, por um qualquer Lukashenko ucraniano). Que a cedência de territórios resolve o problema. (Para os moscovistas, a tragédia da vida dos ucranianos sob ocupação é irrelevante.)
Quatro anos de terror russo foram quatro anos de florescimento da cultura e da identidade ucraniana. Ao tentar provar que a Ucrânia não existe separada da Rússia, Vladimir do Kremlin, filho da Putina, criou definitivamente uma Ucrânia que não voltará a querer existir ligada à Rússia. Ao atacar um país em que não acredita, Putin criou uma nação que acredita em si mesma.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

Deixe comentário