Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Contra ventos fortes e marés altas

Portugal está em cenário de ficção-científica pós-apocalíptica. Árvores caídas, carros destroçados, casas rebentadas, chuva permanente, ventos ciclónicos, elites ausentes, governos demagógicos. Podia ser um conto do Phillip K. Dick, mas há quem diga que são apenas maus dias para piquenique.
Dizem os comentadores que Portugal nunca está preparado para catástrofes. Digo eu que Portugal nunca está preparado para nada. Não faz parte da génese cultural estar preparado para coisas. Nem para as boas nem para as más. Habituámo-nos desde há muitos séculos a fingir que nada se passa. Vida que segue. Os lusitanos foram invadidos por romanos, os romanos por visigodos, os visigodos por árabes e berberes, o califado pelos reinos cristãos, o nosso Afonso tirou isto ao Afonso deles, invadiu-se o Algarve, descobriu-se a Madeira, ocupou-se Angola e Moçambique, chegou-se à Índia, caiu a monarquia, caiu o Salazar, vida que segue, que aqui não acontece nada, é sempre o mesmo rame-rame.
Em Portugal, a calamidade e a gritaria acumulam-se quando chove e quando não chove. Quando a taxa de natalidade é muito alta e quando a taxa de natalidade é muito baixa. Quando há muito desemprego e quando há muito emprego. Quando há muitos emigrantes e quando há muitos imigrantes. Quando perdemos e quando ganhamos. Quando o Camões é esquecido e quando o Camões é lembrado.
Acho que vai sendo tempo – 900 anos já é boa idade – para se perceber que não há factores, condições ou variáveis que façam diferença. Ser desgraçado é uma fatalidade. No sentido em que é inevitável e no sentido em que é mortal.
As regras da União Europeia, tal como faz com os maços de tabaco, devia obrigar o governo a exibir um aviso no passaporte português: “Portugal agrava o risco de lhe acontecer coisas”.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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