O tempo, agente supremo da passagem da vida, é a espada que trespassa o Homem num mistério inalcançável. Aprendemos a contar para tentar referenciar o que passou e o que vem a seguir: segundos, minutos, horas, dias, meses, anos… tudo isto para nos dar a perceção de que temos algum controlo sobre aquilo que não controlamos.
Nós não existimos no tempo, mas o tempo existe em nós. Se pensarmos no que fomos ontem, percebemos que essa existência já passou, já não estamos lá; no futuro, a mesma coisa e, no presente, o exato segundo em que nos reconhecemos acaba de passar. «Somos hóspedes do instante, cada um de nós», como Eduardo Lourenço referiu.
E, sendo hóspedes, é-nos dado a habitar brevemente cada momento, com a responsabilidade de o vivermos com lucidez. O tempo não nos pede licença para avançar, ele transforma, molda, desgasta e renova. O que ontem parecia sólido, hoje é memória; o que hoje parece eterno, amanhã será silêncio.
O tempo não se repete e exige coragem para o novo, para a eterna novidade do mundo, e se há algo mais poderoso do que o tempo, talvez seja a consciência do tempo: perceber quando um ciclo se fecha e outro deve começar.
É tempo de reconhecer que o tempo que passou na Guarda cumpriu o seu papel, com os seus méritos e as suas sombras. Mas o passado não pode amarrar o presente nem comprometer o futuro. O que urge, agora, é abrir horizontes, permitir que novas ideias, novas energias e novas vontades deem forma ao que ainda está por viver.
Hoje, sente-se na cidade um forte apelo por mudança. Não é apenas um desejo, é uma necessidade: a de abrir portas, de arejar ideias, de permitir que outras vozes moldem o tempo que vem.
É tempo de dar lugar a novas perspetivas, a novas formas de pensar o território, de cuidar das pessoas, de construir soluções para os desafios do presente.
O tempo é matéria-prima da política, porque governar é justamente decidir o que fazer com o tempo dos outros, com o tempo de quem espera, de quem sonha, de quem luta por uma vida melhor. E é por isso que, mais do que nunca, a Guarda precisa de novos escultores do tempo. Pessoas que abarquem visão, energia, compromisso real com o bem comum; que saibam onde estamos, mas que tenham a coragem e a capacidade de nos levar mais longe.
A Guarda merece que o tempo lhe seja, finalmente, favorável.


