Milunar

No ano 1000 da nossa era, uma parte do mundo pensava que o mundo todo ia acabar. No número 1000 da nossa publicação, uma parte do país pensa que o interior todo podia fechar. Não este INTERIOR que o leitor segura nas mãos ou lê na internet, mas o interior de que o Governo lava as mãos e conhece pela televisão.
Apesar das sentenças terminais, o interior e O INTERIOR continuam rijos como pêros, uma espécie de fruta mais utilizada como metáfora do que como alimentação, embora os próprios pêros já tenham conhecido melhores dias.
Há mil anos, o interior ainda não sabia que ia ajudar a construir uma nação chamada Portugal, há mil números O INTERIOR já tinha ideia de ajudar a construir uma noção do que é Portugal. Se esta frase parecer lamechas é porque o é, mas também porque o leitor se comove facilmente com números redondos, com o jornal e com o país. O leitor é, portanto, um supersticioso intelectual nacionalista.
O destino de O INTERIOR de 1.000 semanas é igual ao de Sherazade de 1001 Noites, que é contar as melhores histórias para não ser condenado à morte. A diferença é que as histórias acabaram a Sherazade e o rei casou com ela, e n’O INTERIOR nem as histórias acabam nem o jornalismo se deita com o poder.
Durante 999 edições eu teria escrito mil por extenso, mas no número 1.000 sou sentimentalmente obrigado a usar os numerais. Por um lado, por uma questão simbólica; por outro, para o leitor não perceber tão depressa – ou não se lembrar, para os que acompanham isto desde o início – que as colunas assinadas por mim nunca versam nada particularmente interessante. E se o leitor estiver neste momento a perguntar, “então mas por que continua a escrever e eu continuo a ler?”, eu tenho uma resposta: por favor, deixe de falar com folhas de papel e retome a batalha de Waterloo. Ao longo da minha colaboração neste jornal que agora chega à milena, recebi várias vezes elogios como “gosto muito de o ver no jornal”, ao que eu respondia habitualmente “olá, mamã, amanhã telefono”. Mas este texto de hoje não é sobre os meus artigos do passado, até porque numa efeméride se deve ser elogioso.
Parabéns a O INTERIOR por ter sobrevivido a todas as intempéries políticas, sociais, económicas e às mais de 700 crónicas que aqui fui publicando. Este projeto está de parabéns por ter chegado ao número 1.000 com a mesma força com que começou. E agora, se o leitor me dá licença, vou ver da Sherazade, que a edição 1.001 é já para a semana.

* Observador de Ornitorrincos

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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