Porto Jarmelo

Era ali a fronteira entre o Condado Portucalense e o Reino de Leão. Nos roteiros, pelos roteiros do Mundo, entrava-se por Porto Mourisco, seguia-se por Urgueira do Jarmelo, Ima, Porto Jarmelo, Casas da Ribeira, João Bragal, Pessolta, Sequeira, Coviais. No Porto Jarmelo saltava-se, a pé enxuto, pelas poldras. A mercadoria que ia no carro atravessava a vau a Ribeira das Cabras. Pagava imposto quem entrava e quem saía. Era a fronteira. Passados alguns anos foi guardada pelos Monges da Ordem Militar do Hospital. Esteve guardada muitos séculos. Durante muitos séculos Portugal funcionou como Estado Independente de uma Nação unida.
Durante esse tempo não vivemos pelo sonho de outros. Imaginámo-nos, fizemos por isso e produzimos e expandimo-nos. Descobrimos para todos as estradas do Mar. Tínhamos feito a Descoberta: só há um Oceano. É isto o que os Meninos da Escola aprenderão quando está nossa civilização desaparecer e dela se souber tanto como sabemos da dos egípcios nos dias de hoje.
Não antecipávamos o futuro, não lhe púnhamos uma probabilidade, pelo cálculo de outros. Mesmo quando invadidos, feitos morrer, renascemos, reaprendendo a produzir. No Porto Jarmelo, antes de subir as barreiras para o alto de Casal de Cinza ou para o topo do Jarmelo, pagámos imposto ao Estado pelo que fomos produzindo enquanto fomos independentes.
Mas, hoje, só há o pensamento que outros têm, possuem e controlam. Pedimos ao Estado para existir. Mandamos a todos emigrar e a Nação vai. Não há meios para pagar nem aos médicos, nem a professores, nem a enfermeiros, nem a engenheiros, nem a pedreiros, nem a carpinteiros, nem a operários, nem a mestres. E eles partem. Mas mesmo para lá de Porto Jarmelo os da Nação engrossam, numa grande proporção, o que dizem que se produz por aqui. Contribuem para o PIB por Amor.
Por aqui, vai dando para, do direito, da economia, muitos entrincheirados, continuadamente, nos explicarem que há dinheiro que nunca existiu. Finanças que fazem, por mágica, desaparecer fundos que, de facto, nunca houve em Bancos que sempre estiveram vazios para que lá púnhamos tudo o que temos. Esses que servem nas trincheiras chamam a este abracadra governar. Para produzir, nem na antecâmara dos pensamentos têm vislumbre de ideia. Para nos empobrecer vão aprender em cabeças alheias, dizem-se ótimos alunos de estrangeiros e até afirmam ser modernos.
Como era saudável o tempo em que se pagava Alfândega no Porto Jarmelo. E tão diferente que é produzir, do que pedir esmola. E, sobretudo, como é bom ainda ter a força para desprezar quem vindo até aqui do Mundo sustentado e a mando da Europa que, ao mesmo tempo que nos endivida, nos grita o insulto: consumam. Muito grato se consumirem mais. Consumam-se.
Pois, o Porto Jarmelo é de granito e tão depressa não vão ser capazes, por muito que desejem que nos consumamos, de lhe dar sumiço. Porque vede que mesmo este O INTERIOR vai na milésima edição só porque estando na Beira Serra é Fronteira. Está na frente.

Casal de Cinza, 05 de março de 2019

Sobre o autor

Fernando Carvalho Rodrigues

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