Há perdas que pertencem à família. Outras aos amigos. Algumas a uma instituição ou a uma comunidade. E depois existem aquelas, raras e profundamente injustas, que atingem tudo isto ao mesmo tempo.
A partida inesperada do sargento-ajudante da Guarda Nacional Republicana João Máximo Mendes é uma dessas perdas.
Escrever sobre um amigo poucos dias depois de o perder é difícil. As palavras parecem insuficientes perante aquilo que sentimos. Mas escrever sobre o João é também uma obrigação de memória. Porque a sua vida não pode ficar reduzida à tragédia da sua partida.
Trancoso perdeu um dos seus maiores embaixadores.
Quem o conhecia sabia do orgulho que sentia pela sua terra. Um orgulho feito de pertença, raízes e, sobretudo, de pessoas. Levava Trancoso consigo para onde quer que fosse. Promovia a sua terra, defendia-a e falava das suas gentes com o entusiasmo de quem sabia perfeitamente de onde vinha.
Ser embaixador de uma terra não exige nomeação. Exige amor. E o João tinha-o.
O associativismo perdeu também um dos seus homens. Não o associativismo do protagonismo ou do reconhecimento, mas aquele que nasce da vontade genuína de servir os outros. O João participava, mobilizava, ajudava e fazia acontecer.
Tinha uma enorme capacidade de liderança, mas possuía uma qualidade ainda mais rara: sabia unir.
Num tempo em que tantas vezes procuramos aquilo que nos separa, o João procurava aquilo que nos aproximava. Construía pontes. Juntava pessoas. Ultrapassava divergências. Acreditava na amizade, na fraternidade e na capacidade de perdoar.
A Guarda Nacional Republicana perdeu igualmente um dos seus homens.
Não me cabe avaliar a sua carreira militar. Cabe-me testemunhar o orgulho com que vestia a farda e o profundo sentido de responsabilidade com que assumia a missão de servir. A GNR não era apenas a sua profissão. Representava valores que transportava para a vida: serviço, lealdade, camaradagem, responsabilidade e compromisso.
Os seus camaradas perderam o seu Sargento-Ajudante. Muitos perderam um amigo.
Mas nenhuma instituição ou comunidade sentirá uma ausência comparável à da sua família.
É aí que qualquer palavra se torna pequena. Não existe homenagem pública capaz de substituir uma presença, uma voz, um abraço ou os pequenos gestos de todos os dias. Fica uma ausência incomensurável. Mas ficam também as memórias, os ensinamentos, o amor partilhado e um nome que continuará a ser pronunciado com orgulho.
E depois ficamos nós, os amigos.
Perdemos o João.
O amigo das conversas, das brincadeiras, das viagens, dos encontros e das histórias que só fazem sentido para quem as viveu. O companheiro que sabia estar presente e o homem que conseguia liderar sem deixar ninguém para trás.
A sua partida obriga-nos também a confrontar uma verdade que tantas vezes esquecemos: julgamos sempre que haverá tempo.
Tempo para telefonar. Para marcar um almoço. Para dar um abraço. Para resolver uma diferença. Para pedir desculpa. Para perdoar. Para dizer a alguém o quanto é importante para nós.
Até ao dia em que deixa de haver tempo.
Talvez esta seja uma das últimas lições que o João nos deixa: a vida é demasiado curta para adiarmos a amizade, demasiado frágil para alimentarmos ressentimentos e demasiado preciosa para permitirmos que o orgulho nos afaste daqueles que amamos.
Trancoso perdeu um embaixador. O associativismo perdeu um impulsionador. A GNR perdeu um militar. A família perdeu alguém insubstituível. Nós perdemos um amigo.
Mas aquilo que um homem constrói no coração dos outros não desaparece quando ele parte.
Há homens que simplesmente passam pela vida.
Outros deixam uma parte de si em todos aqueles que encontraram pelo caminho.
O João era um desses homens.
Até sempre, meu querido amigo.

Fausto Frade*
Professor Universidade Politécnica de Coimbra*


