Imaginemos o vazio de um seguidor que vê revelada a podridão do seu pastor. Imaginemos um militante a quem se destapam os segredos tenebrosos do líder.
Fiquemos no desapontamento do filho que descobre os crimes infames do pai. A desilusão é um processo que conduz a várias emoções. Tal como o trauma de guerra, a brutalidade do desapontamento sufoca, aperta, reduz e revolta.
Vem isto a propósito de Sócrates, que há dez anos combate uma imagem ao lume, uma reputação no grelhador.
Há militantes ainda com ele, e há incrédulos que se avolumam à medida que o tempo passa e o Ministério Público não constrói uma narrativa credível e sustentada.
José Sócrates foi preso quando regressava a Portugal e, portanto, nunca houve perigo de fuga. Seguiu-se uma investigação feroz, um ano de detenção em Évora, uma chacota pública inigualável, uma revolta popular bem regada pelo jornalismo.
José Sócrates, entretanto, estudou Direito como poucos licenciados e esgrime uma retórica eficiente, a quem, paulatinamente, observamos inquebrantáveis argumentos. A desilusão de 2012 começa a substituir-se pela incredulidade nas instituições e, agora, na chacota da justiça.
O homem, afinal, roubou, ou foi roubado da sua dignidade? Ao político Sócrates, neste momento, não vislumbramos uma saída para lá da defesa da sua inocência. Os factos estão no que parece, mais do que no demonstrado inequivocamente. Tanto assim estamos que 12 anos não chegaram para a situação ter um epílogo. A comunicação social, depois da idolatria de 2004 a 2010, agora conjuga-se no apoucamento, no adjetivo mordaz, na graçola ridícula. Agora imaginemos que José Sócrates ganha esta batalha e vem inocentado das acusações do Ministério Público. O processo sinusoide de seguidor a desapontado, de desiludido a descrente, mas agora a solidário com o injustiçado, é uma ascensão mirabolante. Num momento em que a Justiça tem um investigador/ministro a ser constantemente investigado, uma longa percentagem de acusados pelo Ministério Público que terminam inocentados, uma deriva grevista e vergonhosa do sistema prisional, tudo pode acontecer.
O nosso Ministério Público surge para já menorizado, tal como as contradições frequentes das decisões judiciais. Portugal espera incrédulo e espantado.


