Uma das grandes polémicas deste Verão foi o conjunto de decisões artísticas tomadas por Christopher Nolan para contar em filme a história do regresso de Ulisses a Ítaca. Já escrevi aqui que 2026 foi o ano em que muitos intelectuais portugueses descobriram o que os irmãos Lumière tinham percebido no século XIX: que contar uma história usado imagens em movimento é diferente de o fazer recitando versos em voz alta.
Há quem acuse Nolan de ter exagerado na liberdade artística e na sequência narrativa na realização e produção do filme. Já Homero não foi nada fantasioso com os ciclopes e as sereias e a feiticeira Circe ou com a estratégia narrativa de pôr Ulisses a meio a história a contar ao rei Alcinoo o que lhe tinha acontecido antes de chegar a Esquéria.
Mas um dos tópicos mais discutidos sobre essa liberdade artística é a pigmentação da epiderme (ou, como diz o povo ignoto e racista, a cor da pele) de algumas personagens, nomeadamente Helena, a causa da guerra de Tróia, e Atena, a deusa que ganhou a Poseidon a tutela de Atenas por ter prometido ao povo que teria abundância de azeitonas.
Para arrumar já a questão, a representação de Atena não me incomoda por não ser caucasiana, mas por ser Zendaya. Durante o filme, várias vezes me perguntei por que razão Ulisses sonhava com Zendaya. Da mesma forma, Calipso, com o porte nórdico de Charlize Theron, me parecia mais vezes uma russa em férias, sempre intoxicada, com boa vida à beira-mar e a tentar sacar um gajo rico e poderoso, do que uma ninfa obcecada com Ulisses.
Mas a polémica mais significativa foi a representação de Helena, a mulher mais bonita do mundo, cujo segundo casamento provocou a destruição de uma cidade, por uma actriz negra. Não vejo aqui nenhuma incongruência. Helena era filha Zeus, que se disfarçou de cisne para engravidar Leda, que era casada com Tíndaro. Ora, Zeus podia perfeitamente ter usado um disfarce de cisne negro. E quando Leda pôs os ovos de onde nasceram Helena e os seus irmãos, não há razões que nos impeçam de imaginar que pudesse ser um ovo Kinder.
Só lamento ter chegado tarde à cultura clássica, porque esta mania de Zeus se disfarçar de bicharada para seduzir raparigas podia tê-la usado eu durante os tempos de escassez da mocidade.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


