Guarda militar parte 3

Escrito por Francisco Manso

2º Grupo de Metralhadoras da Guarda

Em 1911 deu-se uma profunda reforma militar em Portugal, promovida pelo regime republicano, com o objetivo de acabar com o antigo sistema monárquico. Basicamente, pretendia criar um sistema de milícia, tal como na Suíça, deixando de haver um exército permanente. Não passou do papel, pois que, entre outras razões, as expedições militares a Angola, Moçambique, Índia e Timor, e o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, provaram a necessidade de um Exército permanente. Mas, de qualquer forma, e naquilo que nos interessa, é que nessa altura, em maio de 1911, foi criado o 2º Grupo de Metralhadoras. A Guarda não tinha condições logísticas minimamente adequadas pelo que só em junho começou o seu aquartelamento na cidade, tendo sido escolhido o velho Seminário tridentino, que tinha acabado de ser “expropriado” à Diocese. Ali veio a encontrar também cómodos o Distrito de Recrutamento da Guarda. Convém lembrar que no quarteirão onde se encontrava o Paço Episcopal, e o Seminário com a sua igreja, funcionam hoje o Paço da Cultura, o Centro Cultural da Guarda, o Museu da Guarda e os Correios, para além do Museu de Arte Sacra. Mas, ainda antes, também por lá estiveram as Finanças, a Cadeia, a GNR, a Caixa Geral de Depósitos e algumas salas do Liceu. É impressionante esta lista, mas, mais ainda, o facto de na altura de alguns importantes cá do sítio passarem o tempo a dizer mal da qualidade do grande e magnífico edifício.
Durante a Primeira Guerra Mundial o Segundo Grupo de Metralhadoras, englobando duas baterias de metralhadoras pesadas de 7,7 mm, fez parte do CEP (Corpo Expedicionário Português), integrando o Batalhão da Guarda, que, por sua vez, pertencia à 3ª Brigada, da 1ª Divisão.
Pouco depois de a guerra acabar passou a integrar o Corpo de Tropas de Guarnição de Lisboa, criado pelo Presidente Sidónio Pais, em março de 1918.
Acabou por ser extinto em setembro de 1926 e integrado no Batalhão de Caçadores nº 12.

O fotógrafo Ayres

Todas as fotos aqui publicadas são da autoria de João António Aires, hoje desconhecido, mas na altura de renome nacional. Bem merecia que a sua memória fosse avivada.
Tudo começou quando dois irmãos, João e António, deixaram a aldeia natal, Santo Estêvão, concelho do Sabugal, e se estabeleceram na Guarda, montando duas casas comerciais que durante décadas foram as melhores do seu ramo. António, com uma pastelaria na Rua da Torre, que mais tarde, face ao sucesso, nomeadamente das suas célebres cavacas, mudou para a Rua Alves Roçadas, em frente à Farmácia Central, com o nome de Pastelaria Confeitaria Reis. João Ayres instalou-se com uma casa fotográfica, a Photographia Ayres, e foi, pode dizer-se, o fotógrafo “oficial” da região, que ele percorria incansavelmente, captando e registando os momentos mais importantes, mas também os mais humildes. No caso concreto do acidente no quartel não podia estar mais em cima do acontecimento, pois o seu “atelier”, como ele lhe chamava, ficava na Rua Batalha Reis, nº 59, quase em frente à caserna onde ocorreu o desastre. Sendo também a sua residência, era lá que sua mulher, Maria da Conceição, trabalhava como modista. A casa ainda lá está, não sei é por quanto tempo…

Manso 1

Figura 1 Publicada na Ilustração Portuguesa, com postal de José de Lemos.

Manso 2

Figura 2 O cortejo na rua Batalha Reis. Col. Ana Manso

Desastre no quartel

Xavier Correia Barreto foi um militar e político que, entre outros cargos, foi deputado, senador e presidente do Senado desde 1915 a 1926. Após a revolução republicana de 1910, assumiu o cargo de Ministro da Guerra do Governo Provisório e foi no desempenho dessa função que visitou o Quartel do Regimento de Infantaria 12. Chegou à Guarda depois de um grande nevão, que proporcionou ao 1º cabo João de Campos fazer uma enorme estátua em neve representando a República, e que ficou famosa no país. Realizou-se uma sessão solene na qual estiveram presentes as famílias mais gradas, todos os que se tinham por importantes, toda a sociedade “fina” da Guarda, militares ou civis. Era tanta a gente, tanto peso, que o soalho abateu. O pânico e a confusão foram grandes e, aos gritos dos feridos, acorreram os Bombeiros, auxiliados por muito povo, o tal que não teve direito a entrar. Foram vários os mortos e ainda mais os feridos, homens e mulheres.

* Investigador da história local e regional

 

Sobre o autor

Francisco Manso

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