Entre abril e maio deste ano tivemos várias greves na CP. Houve prejuízo dos utentes, que se viram privados de transporte e em muitos casos da única forma de chegarem ao local de trabalho, apesar de terem pagos os passes mensais; da CP, que perdeu parte da receita correspondente aos dias em que os comboios estiveram parados, já que a outra estava garantida pelos mesmos passes; e os próprios trabalhadores grevistas, ao perderem a remuneração correspondente aos dias de greve. Caberia aqui perguntar a quem aproveitou a greve, se é que aproveitou a alguém, e, tudo ponderado, se valeu a pena.
A greve foi capa de jornais e abertura de noticiários, na rádio e na televisão. Foi também tema da campanha eleitoral, a favor e contra. Montenegro, por exemplo, sugeriu que a lei da greve fosse revista, embora sem dizer em que sentido. Escreveu-se sobre o assunto em inúmeros artigos de opinião e reportagens. A esmagadora maioria do que se escreveu e disse apontava apenas na direção dos danos causados pela greve, ao ponto de terem passado para lugar secundário a causa da greve e as razões de a CP não ter aceitado as reivindicações dos sindicatos. Tenho a certeza que a maior parte de nós desconhece as razões de um e outro lado, o que mostra muito acerca da qualidade e diversidade da informação a que temos acesso.
A questão é ao mesmo tempo complicada e simples. A CP e os sindicatos chegaram a acordo sobre a nova grelha salarial mas esta não chegou a ser aplicada, com o argumento de que tinha de ser validada pelos ministros da tutela e estes, porque o Governo estava demissionário, não tinham autoridade suficiente para o fazer. Os sindicatos, por sua vez, entendendo o contrário, queriam forçar com a greve a aplicação imediata do acordo salarial. Não devemos esquecer aqui que o argumento de que um Governo em gestão não poderia autorizar o aumento da despesa tem um valor muito relativo. O Governo aprovou em abril e maio despesas não orçamentadas, como, por exemplo, em apoios a agricultores, em apoios à habitação ou em subsídios à energia, e não parece ter vindo daí grande mal ao mundo, tal como não parece trazer grande prejuízo o adiamento da cobrança do IMI que seria devido agora (uma medida, já agora, vergonhosamente eleitoralista). Em suma, é discutível se o acordo podia ou não ser validado agora e se podia ser implementado de imediato.
Na dúvida, cabia aqui algum bom senso. Se o Governo e a CP tinham esse argumento, se era previsível que até aparecer um novo Governo, com ministros dos Transportes e das Finanças plenamente capacitados para autorizarem o acordo, inclusivamente com pagamento de retroativos, porquê insistir nessa greve agora? Apenas para embaraçar o Governo em período eleitoral?
Entre os custos da greve de que falei acima não constava um, muito importante, que é o cansaço do público em geral, e não só dos utentes lesados, relativamente a certas greves e a certos grevistas e sindicatos. Para muitos cidadãos e votantes esta greve foi uma agressão, num longo historial de agressões semelhantes. Tudo pesado, e considerando que não estava em causa a perda de nenhum direito, já que o acordo estava assinado, podiam ter-se evitado todos esses danos. Pergunto outra vez: valeu a pena?


