Francisco de Pina: a memória que obriga a Guarda a olhar para si própria

Num país excessivamente concentrado no litoral e nas agendas imediatas, o interior corre frequentemente o risco de perder as suas referências culturais e intelectuais. A consequência é grave: quando uma comunidade deixa de conhecer os seus protagonistas históricos, perde também parte da sua confiança no futuro. Francisco de Pina representa precisamente essa dimensão esquecida de uma Guarda culta, interventiva e intelectualmente relevante.
O problema da memória histórica no interior português nunca foi falta de património. Foi falta de continuidade. Celebram-se datas, inauguram-se placas, fazem-se cerimónias ocasionais, mas raramente existe uma estratégia cultural consistente que transforme a memória em identidade viva. É aqui que Francisco de Pina merece ser recuperado não como peça de museu, mas como símbolo de uma tradição de pensamento e participação cívica.
A Guarda tem hoje uma responsabilidade particular nesse trabalho de recuperação histórica. Num tempo em que as cidades médias lutam contra a desertificação, o envelhecimento e a perda de centralidade, a cultura deixou de ser um luxo institucional: tornou-se uma necessidade estratégica. Uma cidade sem consciência da sua própria narrativa torna-se apenas um espaço administrativo.
Francisco de Pina ajuda-nos a perceber algo essencial: o interior português nunca foi intelectualmente pobre. Pelo contrário. Produziu pensamento, quadros qualificados, intervenção cultural e debate político. O que muitas vezes faltou foi capacidade de preservar essa herança e projetá-la nas novas gerações.
Há também um lado simbólico importante nesta reflexão. O reconhecimento de figuras históricas locais tem impacto na autoestima coletiva. Os jovens da Guarda precisam de saber que nascer numa região do interior não significa estar condenado à irrelevância. Precisam de referências que demonstrem que daqui também surgiram homens de pensamento, cultura e influência.
Mas há um risco que importa evitar: transformar Francisco de Pina apenas num exercício nostálgico. A memória só faz sentido quando serve para construir futuro. Recordar o seu legado deve significar investir mais em educação, em cultura, em investigação e em pensamento crítico na região. Deve significar criar condições para que a Guarda continue a produzir novas gerações de protagonistas culturais e académicos.
Na semana passada, Rui Campos Guimarães e Eduardo Marçal Grilo escreveram no jornal Público (“Francisco de Pina, um génio português quase desconhecido entre nós”) que «a obra de Francisco de Pina foi notável, com a criação da escrita de uma língua que hoje perdura no Vietname, sendo falada por mais de 100 milhões de pessoas (…). Uma homenagem com grande impacto nacional e mesmo internacional era lhe absolutamente devida. Esperamos que se materialize…»
Como escreveu Acácio Pereira (https://www.ointerior.pt/opiniao/francisco-de-pina-e-a-crise-de-futuro-da-guarda/), Francisco de Pina (1585-1625) foi muito provavelmente o egitaniense que levou mais longe o nome da Guarda, literalmente. Levou-o até ao outro lado do mundo, ao Vietname, onde a sua obra ainda hoje se lê em cada letra, em cada sílaba do quốc ngữ, o sistema de escrita vietnamita que ele ajudou a criar baseado na língua portuguesa. A história da Guarda não se resume à Sé, ao granito ou à altitude. Resume-se também às pessoas que lhe deram pensamento, voz e identidade. Francisco de Pina faz parte desse património invisível que muitas vezes vale mais do que qualquer obra física. E talvez seja precisamente essa a principal lição: uma cidade sobrevive não apenas pelas infraestruturas que constrói, mas pela memória intelectual que decide preservar.

(Guarda, 13 Maio, 2026)

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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1 comentário

  • Francisco de Pina e Augusto Gil?

    Francisco de Pina teve como seu trabalho mais notável no Vietname, tendo criado o sistema de escrita da língua vietnamita, o Chữ Quốc ngữ. Foi reconhecido pela comunidade Guardense? Não. O reconhecimento foi da comunidade vietnamita. Mesmo louvando o mérito do seu trabalho como missionário nessa referida região e de lá vir o reconhecimento, nada mais reconheço que tenha feito pela Guarda.
    Falemos de outra pessoa. Com grande parte da sua vida na Guarda, foi um dos maiores poetas líricos portugueses, falo de Augusto Gil.
    Augusto Gil, de forma muito vaga, foi quem popularizou a alma da região na literatura e ajudou a moldar o imaginário cultural guardense. Com certeza que todos os guardenses, quando neva, mesmo agora sendo escassa, uma das primeiras associações que faz é a Balada da Neve. E não só os guardenses que o reconhecem. É um dos poemas mais conhecidos da literatura portuguesa.
    O que existe sobre Augusto Gil? Uma estátua de bronze num largo e a fachada da casa onde residiu, que ostenta uma lápide comemorativa de bronze, colocada em 1973!
    Comecemos por aí, por quem foi e é de alma guardense.