A forma como está a ser gerida a interrupção da circulação na Linha da Beira Baixa, na sequência das intempéries que há dois meses afetaram a região, tornou-se um verdadeiro teste àquilo que o país diz querer para o seu território: mais coesão, mais equilíbrio, mais justiça entre o litoral e o interior.
Infelizmente, o que temos visto está longe de corresponder a esse desígnio.
Durante semanas, sucederam-se os alertas de autarquias, associações e do Partido Socialista, sem que houvesse uma resposta atempada e clara por parte das entidades responsáveis. Quando finalmente foi anunciada uma solução, ficou evidente que não estamos perante uma resposta à altura das necessidades das populações, mas antes perante uma medida minimalista, que resolve pouco e deixa demasiado por resolver.
O transbordo rodoviário entre a Guarda e Abrantes, previsto por um período mínimo de seis meses, pode ser apresentado como uma alternativa provisória, mas na prática traduz-se num agravamento das condições de mobilidade. Ao acrescentar cerca de 30 minutos à ligação entre Lisboa e a Guarda, penaliza quem depende diariamente do transporte ferroviário para trabalhar, estudar ou aceder a serviços essenciais.
Mais preocupante ainda é o facto de esta solução não acautelar condições básicas de inclusão, deixando de fora pessoas com mobilidade reduzida, utilizadores de cadeiras de rodas ou passageiros que transportam bicicletas, o que é particularmente grave num serviço público que se quer universal e acessível.
Acresce que o modelo adotado ignora, na prática, o troço entre a Covilhã e a Guarda, deixando sem resposta várias estações e comunidades que tinham sido integradas, desde 2021, nos serviços de Intercidades e Regionais. Caria, Belmonte-Manteigas, Maçainhas, Benespera ou Barracão-Sabugal deixam assim de ter uma ligação funcional, comprometendo a mobilidade de populações inteiras.
Estamos a falar de um impacto direto em cinco concelhos – Guarda, Sabugal, Belmonte, Manteigas e Penamacor – num contexto em que o reforço da ferrovia tinha sido assumido como instrumento central de coesão territorial, nomeadamente no quadro do Plano Ferroviário Nacional.
Nada obstaria se existisse vontade, a que a ligação ferroviária nos horários do Intercidades continuasse a ser assegurada até Castelo Branco ou Ródão, limitando o transbordo rodoviário ao troço entre essas estações e Abrantes. Uma solução deste tipo permitiria reduzir significativamente os impactos para os passageiros e garantir maior continuidade e dignidade no serviço prestado.
O que esta situação evidencia é, assim, não apenas uma limitação técnica, mas sobretudo uma opção que revela falta de ambição e de consideração pelo território.
Quando se fala de coesão, não basta assegurar o mínimo. É necessário procurar as melhores soluções possíveis, sobretudo quando estão em causa regiões que já enfrentam desafios estruturais tão exigentes.
Por isso, é também essencial exigir celeridade na reposição da circulação ferroviária. A Linha da Beira Baixa não pode ser tratada como uma infraestrutura secundária: é tão importante para a coesão do país como a autoestrada A1 é para a ligação entre Lisboa e o Porto. O país não aceitaria meses de interrupção na sua principal autoestrada; também não pode aceitar esta demora numa linha estruturante para o interior.
É indispensável corrigir o rumo, garantindo soluções transitórias verdadeiramente inclusivas e eficazes, mas também assegurando que, uma vez reaberta a linha, seja retomado integralmente o serviço ferroviário e retomada a ambição de avançar com o Intercidades do Interior – a ligação Lisboa-Porto via Castelo Branco e Guarda – que o Governo do Partido Socialista deixou em plano.
A coesão territorial não se proclama: constrói-se, sobretudo, nas decisões concretas que fazem a diferença na vida das pessoas.
* Deputada do PS na Assembleia da República eleita pelo círculo da Guarda e Coordenadora da Comissão Permanente de Educação e Ciência



