A ditadura dos partidos

Escrito por Júlio Sarmento

Os partidos políticos são essenciais para garantir, numa democracia representativa, a existência e o respeito institucional à diversidade de opções ideológicas.
A sua existência tem dignidade constitucional, como entidades de cariz e organização democráticas, na sociedade portuguesa. Era suposto, por conseguinte, que os partidos se constituíssem e funcionassem como garantes da democracia, da liberdade de opinião, do respeito pela diversidade.
Todavia, cada vez mais os partidos funcionam numa lógica de grupo, na defesa do interesse de uns quantos, através de uma verdadeira ditadura da maioria. Quem está no poder serve-se, em proveito próprio, sem pudor, nem reserva. Sem respeito pelas minorias, conta até com a sua reverência e a veneração que julga de direito.
As virtudes ficam, assim, na dependência de uma semântica de oportunidades e conveniências. A quem está na oposição resta um rosário de mágoas, o dever, sempre recordado, de obedecer, numa lógica de exercício de um poder musculado em que se revelaram os partidos.
O que conta não é o interesse público, muitas vezes nem o interesse do partido, tão só o interesse próprio de quem detém o poder. É a jurisprudência dos interesses que nunca se embaraçou com a ética. A política transformada numa feira de vaidades, sem valores, de interesses promíscuos, de vontades peregrinas que se juntam para se satisfazer.
Será, porventura, um lamento incontido de quem se lembra de comparar os tempos para, num momento de infelicidade, amargo, ter memória dos valores que não deviam ser esquecidos. De quem sempre alinhou à chamada dos combates, que ocorreram, na trincheira de todos os tempos, se lembra das muitas batalhas ganhas, de todos os debates em que participou.
Dos muitos que ensinaram pelo exemplo, sem muitas palavras, pois estão na política apenas para compartilhar, acrescentar, contribuir e somar. São militantes persistentes e anónimos, leais e corajosos, sem graduação, nem mordomias, iguais perante o mesmo desafio, que esperam de pé para responderem com firmeza.
Sabem que, em regra, a colheita lhes não pertence. Mas não querem que o próximo combate seja um encontro sem crónica!

* Presidente da Mesa da Assembleia Distrital do PSD da Guarda e ex-presidente da Câmara de Trancoso

Sobre o autor

Júlio Sarmento

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