Cara a Cara

«Há cobertores de papa industriais que se apropriaram do nome e enganam os consumidores»

Escrito por Jornal O Interior

P – Quais as principais atividades desenvolvidas pela Associação Genuíno Cobertor de Papa?
R – A Associação Genuíno Cobertor de Papa (AGCP) mantém em funcionamento todo o processo da produção do cobertor de papa tradicional, artesanal e autêntico de Maçaínhas (Guarda), ao mesmo tempo que desenvolve atividades ligadas à tecelagem e participa e organiza exposições e eventos de caráter lúdico e cultural. Recebe visitantes comuns, turistas e estudantes, dos vários níveis de ensino, colabora com universidades e tem capacidade para dar formação em tecelagem e derivados. A associação participa ainda em atividades da comunidade e da autarquia.

P – Quais as motivações que a levaram a fundar esta associação?
R – Proteger, defender, divulgar e produzir o cobertor de papa de Maçainhas, que se encontrava em vias de extinção. Por outro lado, salvaguardar os seus processos artesanais perante produtos industriais que se apropriaram do nome e, com isso, enganam os consumidores, desonram um património histórico e cultural e concorrem deslealmente com quem continua a usar os processos fieis à tradição secular e artesanal, e respeita a autenticidade do produto e seus processos, bem como a cultura e memória dos que no-lo legaram.

P – Maçainhas já viveu desta atividade em tempos passados. Atualmente, qual é a relevância da produção do cobertor de papa para a região?
R – Há décadas atrás em cada habitação havia um tear manual e quem circulava pelas ruas de Maçainhas ouvia a cadência regular proveniente da lançadeira a cruzar a teia com o fio trama. Também se podiam ver as ramblas cheias de cobertores multicoloridos que enfeitavam algumas ruas. Hoje, apenas existem nas instalações onde funciona esta associação, que procura não deixar morrer este ícone da identidade de Maçainhas e, para além de produzir cobertores, também organiza atividades que trazem animação à localidade. Consideramos que, com as atividades que temos desenvolvido, trazemos animação à aldeia e contribuímos para a economia local – pelo fio que compramos, pelos serviços de restauração, alojamento, reprografia e outros a que recorremos e pagamos. Tudo isto é feito sem que ninguém na associação seja remunerado, pois o trabalho é feito em regime de voluntariado.

P – A Associação completou um ano de existência. Qual o balanço que faz, neste primeiro aniversário?
R – O balanço é francamente positivo, apesar de reconhecermos que muito ainda há para fazer. O começo é quase sempre a parte mais difícil pois, além de naturais dificuldades e resistências, como descrenças, a falta de apoios e concorrência de produtos industriais que se fazem passar pelo cobertor de papa artesanal têm um grande impacto. Tudo isto acrescido das dificuldades decorrentes da escassez e preço da lã churra e do encerramento de tinturarias próximas, o que nos obriga a recorrer a tinturarias longínquas e se reflete em preços elevados e logística mais morosa. No entanto, não desistimos. Conseguimos não só voltar a fazer todos os tipos de cobertores tradicionais – manta do pastor, manta lobeira ou espanhola, cobertor bordado, cobertor branco e cobertor branco com listas castanhas nas pontas –, como também testámos com sucesso o uso alternativo do castanho e branco naturais em combinações diferentes. Criámos também sabonetes e rocas de cheiro, a partir do fio do cobertor, como se pode ver na nossa página de facebook O Genuíno Cobertor de Papa.

P – Quais os planos para o futuro? O que pretende a associação desenvolver e quais as maiores dificuldades que enfrenta para o conseguir?
R – Queremos certificar o produto, difundi-lo o melhor possível, incluí-lo em circuitos turísticos e estabelecer parcerias com escolas, do 1º ciclo às universidades, passando pelo IEFP, formação profissional, lares, centros de dia e todo o tipo de instituições e coletividades que connosco queiram trabalhar. Para já, temos trabalhos acertados com uma universidade alemã e estamos a criar uma base de trabalho com uma universidade nacional. Pretendemos prestar formação a pessoas empregadas, reformados e, claro, a desempregados, pois esperamos que alguns jovens possam interessar-se e dedicar-se a esta arte. Por outro lado, a AGCP não possui instalações nem os aparelhos necessários à produção do cobertor de papa pelo que tem de alugar o espaço ao proprietário – o senhor José Pires Freire, que possui algumas peças únicas no mundo –, o que nos traz grandes problemas para conseguirmos manter tudo a funcionar. Acreditamos que, com o passar do tempo e perante a nossa resiliência, surgirão mais apoios que nos permitirão algum desafogo e, assim, a sobrevivência do cobertor de papa autêntico pelo menos enquanto pudermos fazê-lo. Todas as ajudas são necessárias e serão bem recebidas.

Perfil de Maria do Céu Reis:

Naturalidade: Sé (Guarda)

Idade: 50 anos

Profissão: Desempregada

Currículo: Trabalhou na fábrica Jofrei durante 27 anos

Filme preferido: “Fuga de Alcatraz”, de Don Siegel

Livro preferido: “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry

Hobbies: Viajar, ler, ouvir música e fazer arranjos florais

Sobre o autor

Jornal O Interior

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