Região

Produtores de castanha preocupados com quebra de produção

Escrito por Carlos Gomes

Falta de precipitação e temperaturas elevadas no Verão e Outono foram determinantes para uma «campanha difícil»

A Feira da Castanha e Paladares de Outono, que decorreu no passado fim-de-semana em Trancoso, voltou a colocar a castanha no centro das atenções, mas na edição deste ano ouviram-se preocupações dos produtores que falam numa campanha «difícil com uma quebra significativa na produção».
A iniciativa do município de Trancoso é um certame já consolidado no calendário regional, dedicado à valorização dos produtos, tradições e sabores característicos desta época do ano. O evento decorreu no Pavilhão Multiusos e reuniu produtores, artesãos, associações e visitantes em torno de um dos produtos mais emblemáticos da região. Nesta edição, a organização pretendeu reforçar a componente técnica e profissional da feira, convidando especialistas, investigadores, produtores, associações e outras entidades ligadas ao setor da castanha e do castanheiro para participarem em conferências, debates e momentos de partilha de conhecimento. Além da castanha e dos seus derivados, a feira contou com uma ampla representação de produtos regionais, entre os quais fumeiro, queijos, doçaria, vinhos, compotas e licores, reforçando a promoção da produção local e do património gastronómico do concelho.
A programação integrou ainda diferentes momentos de animação, degustações, “showcooking”, concursos e atividades dirigidas às famílias, proporcionando três dias de convívio e celebração dos sabores de outono. Alguns produtores adiantaram a O INTERIOR que «o ano não foi tão bom» e a produção «foi menor do que no ano passado, tendo em conta o Verão quente e seco. Em agosto ainda veio uma boa rega, pensávamos que nos iria trazer bastante produção, mas depois voltou a aquecer e tivemos Verão outra vez. A castanha não desenvolveu como estávamos a contar». A fileira da castanha enfrenta cada vez mais «novos desafios com as alterações climáticas, os verões são muito extremos, o stress das plantas é enorme, já para não falar das doenças a que o castanheiro está sujeito», ou seja, este ano «a produção diminuiu, mas, a pouca que há continua a ser de alta qualidade por ser castanha Martaínha», já que o concelho de Trancoso «proporciona excelentes condições», referiram.
Nalgumas zonas do município regista-se «uma quebra de 30 a 40 por cento de produção comparando com o ano anterior», realçaram. Na feira, o quilo da castanha foi negociado entre os 4 a 4,5 euros, já que se tratou de «uma castanha selecionada, pronta para o consumidor e com todas as características da Martaínha, quanto ao calibre e doçura». Sobre a feira, os produtores ouvidos por O INTERIOR disseram tratar-se de «uma boa iniciativa do município para aproximar os produtores dos clientes», promovendo os produtos endógenos da região «não apenas a castanha, mas também a noz, a amêndoa, o mel, os doces e os licores». Uma feira que «chama muita gente e importante para todos», afirmaram. O certame foi inaugurado pelo secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território. Silvério Regalado sublinhou a importância de «dinamizar estes territórios, valorizar as pessoas que cultivam a castanha, o castanheiro, os produtos agrícolas em geral e que nos permitem ter comida à frente. A segurança alimentar é algo que é muito importante nos dias que correm».
Por isso, os territórios têm que ter «ferramentas, nomeadamente a Lei das Finanças Locais, para poderem responder às necessidades daqueles que procuram nas Câmaras a primeira resposta da presença do Estado, a par com as Juntas de Freguesia», considerou. Já o presidente da Câmara, Daniel Joana, salientou que Trancoso «quer estar na vanguarda do estudo do castanheiro e um passo à frente sobre o que vai ser a nova cultura do castanheiro nos próximos anos. Para isso, precisamos da ciência, da tecnologia e da inovação. O cultivo tradicional do castanheiro, tal como o conhecíamos, não existe, está morto». Segundo o autarca, é preciso descobrir «novas formas de cultivar e produzir castanha».
Esta edição da Feira da Castanha teve «uma preponderância muito grande nesse trabalho científico e técnico, com a presença de investigadores de diversos pontos do país, produtores que têm conhecimento empírico e empresas que transformam a castanha». A ideia é transformar Trancoso num «centro do conhecimento do castanheiro, nesse centro de investigação da produção de castanha e daquilo que serão os nossos soutos no futuro», realçou Daniel Joana.

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