Editorial de Luís Baptista-Martins: Centro Histórico: salvar a memória, devolver a vida

Há cidades que começam a morrer quando deixam de ser habitadas, muito antes de as suas pedras tombarem. A Guarda, cidade de pedra, memória e altitude, conhece hoje essa inquietante contradição: conserva um património de inegável valor identitário, mas assiste, em São Vicente, ao progressivo esvaziamento de um dos lugares onde a sua história mais profundamente se inscreve. Casas devolutas, edifícios insalubres e paredes ameaçadas de ruína compõem uma paisagem em que a memória resiste, mas a vida escasseia. Estima-se que ali residam apenas duas dezenas de pessoas. É um número que dispensa retórica e exige ação.

Durante anos, os incentivos públicos à recuperação de telhados, fachadas e habitações alimentaram a esperança de uma reabilitação conduzida pelos proprietários. Os resultados, porém, ficaram muito aquém do necessário.

A Câmara Municipal tem vindo a adquirir edifícios e a preparar soluções de habitação a custos acessíveis e a instalar serviços no centro histórico. Importa aprofundar esse caminho, articulando habitação, serviços públicos, equipamentos culturais e atividades económicas numa estratégia continuada.

Os serviços públicos podem trazer circulação às ruas durante o dia; a habitação pode devolver-lhes presença humana ao anoitecer. Uma cidade não se mede apenas pela qualidade das suas pedras, mas também pelas luzes acesas nas janelas, pelas crianças que brincam, pelos vizinhos que se encontram e pelos pequenos negócios que sobrevivem à rotina quotidiana. Sem habitantes, a reabilitação corre o risco de produzir cenários irrepreensíveis para uma cidade ausente.

Mas preservar não significa congelar. São Vicente precisa de continuar a ser lugar de pertença, acolhendo também jovens famílias, estudantes, investigadores e cientistas ligados à Universidade Politécnica, bem como profissionais que procuram novas formas de trabalhar e viver. Para isso, são indispensáveis casas dignas, rendas comportáveis e uma política de acolhimento que transforme a intenção em possibilidade real.

Há, além disso, uma oportunidade de fazer da cultura um instrumento efetivo de povoamento. Como em outros momentos aqui escrevi, a criação de bolsas de residência artística, com alojamento gratuito durante dois ou três anos, destinadas a escritores, pintores, escultores, dramaturgos e outros criadores portugueses ou estrangeiros, poderia associar a ocupação de imóveis municipais à produção artística. Em contrapartida, cada residente desenvolveria uma obra durante esse período, inspirada na Guarda e na sua identidade. Livros, pinturas, esculturas ou peças de teatro seriam, assim, o resultado de uma política que trocaria casas vazias por criação, silêncio por expressão e abandono por presença. A cultura deixaria de ser apenas um cartaz para se tornar uma força concreta de regeneração urbana. E a animação cultural seria muito mais do que uma forma de expressão, seria vida na cidadela.

Também a pretensão de uma eventual candidatura do centro histórico a Património Mundial da UNESCO merece reflexão. A ideia tem antecedentes no debate político local: terá sido sugerida por Jaime Couto Ferreira, retomada por Maria do Carmo Borges numa conversa com José Sócrates, então ministro do Ambiente, durante uma visita à Praça Velha, em 2001, no âmbito da PolisGuarda, e assumida posteriormente como bandeira da candidatura autárquica de José Igreja, em 2013. Independentemente da sua genealogia, importa discutir a sua viabilidade com rigor. A dimensão reduzida do núcleo histórico e as limitações dos recursos disponíveis levantam questões que não podem ser ignoradas. Uma candidatura desta natureza exige património de valor universal excecional, fundamentação técnica e uma estratégia consistente de conservação e gestão. Não pode ser apenas um desígnio simbólico, por mais mobilizador que pareça.

O centro histórico não se salvará com fachadas, placas comemorativas ou candidaturas, por mais prestigiantes que sejam. Salvar-se-á quando voltar a ter moradores, comércio, serviços, cultura e quotidiano. Quando as pedras deixarem de ser apenas testemunhas do passado para voltarem a acolher o futuro.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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