Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Cordial

Escrito por Diana Rodrigues

A forma de expor uma ideia, a maneira como trabalhamos, o modo como conduzimos, o facto de dar passagem, permitir ou facilitar a manobra alheia, esperar paciente pela resolução de outrem, abnegar uma escolha em prol, educadamente refletir antes de ripostar, são gestos de cordialidade que não precisam estar num código de conduta.
A represália, a coima, são necessidades para impor comportamentos em quem não sabe estar em grupo, contudo servem de fronteiras adequadas à reivindicação do ofendido. Um tipo cordial auxilia, facilita, disponibiliza, mas espera um agradecimento, um gesto reconhecido, um aceno de gratidão, porém pode não existir e frequentemente não surge de modo espontâneo. Na realidade o ensino de boas maneiras é uma promoção da cordialidade no tempo do egoísmo. O pressuposto do respeito pelo próximo, no fundo o texto da mensagem cristã, coadjuvada por Kant no princípio categórico e por fim reivindicada por muitos, diria para fazer aos outros como gostarias que eles te fizessem a ti. Há leis apenas para cumprir a cordialidade e o comportamento consentâneo: «Pode ser recusado o acesso ou a permanência a quem perturbe o funcionamento normal do estabelecimento. Uma pessoa sob o efeito excessivo de álcool que cause desacatos, adote um comportamento agressivo ou incomode os restantes clientes» enquadra-se neste articulado Artigo 131.º do Decreto-Lei nº 10/2015. Mas foi preciso! Agora teremos de legislar sobre a utilização inconveniente de telemóveis.
Os que os ouvem aos gritos no recato alheio, os que nos obrigam às suas conversas em toda a parte, os que obsessivamente escutam vídeos, os que falam sempre com imagens. E será preciso? Obviamente! O ser humano é um traste que para tudo foi necessário legislar: o tabaco em todo o lado, a exibição do alcoolismo, a falta de decoro, o arrumar de carros, a condução de “tuk tuk”, a intensidade do turismo, o preenchimento de manifestações de interesse, o uso de costumes longínquos na terra alheia, a idade para se casarem meninas, … há coisas que parecem improváveis, porém o limite só chega no excesso e no confronto. A cordialidade do estado é a legislação porque os cidadãos cada vez abdicam mais.

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Diana Rodrigues

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