Editorial de Luís Baptista-Martins: Um Conselho de Ministros que ficou aquém da Guarda

A Guarda recebeu quinta-feira passada o Conselho de Ministros. Recebeu o Governo inteiro, os ministros e a solenidade própria de quem traz consigo o poder de decidir. Mas, terminado o ritual, fica uma pergunta incómoda: o que ganhou, concretamente, a Guarda com a presença do Governo na cidade? Nada!
Esperava-se, por exemplo, que a Universidade Politécnica da Guarda desse o passo decisivo para se transformar em Universidade da Guarda, à semelhança do que sucedeu em Bragança. Era uma oportunidade para afirmar que o interior não pode ser apenas território onde se anunciam políticas de coesão, mas também território onde se constroem instituições fortes, capazes de fixar conhecimento, talento e população.
E esperava-se que o mês em que se prepara a inauguração do Porto Seco fosse aproveitado para desbloquear as variantes da Sequeira e dos Galegos, infraestruturas essenciais para a mobilidade da população da Guarda e para a acessibilidade do Porto Seco.
Nada disso aconteceu.
Não se esperava um catálogo de promessas. Esperavam-se decisões. É essa a diferença entre uma passagem institucional e uma verdadeira presença política.
No fim, ficou a fotografia, ficou a cerimónia e ficaram os discursos, as visitas ou inaugurações de equipamento que já estava a funcionar.
E tudo isto acontece num momento em que o país se encontra entretido — e a palavra não é inocente — com o deve e haver do Orçamento do Estado para 2027, com as negociações partidárias, com a interminável contabilidade dos milhões que entram e dos que ficam à porta, e com aquilo que poderá, ou não, ser inscrito em benefício de quem mais precisa.
Era, por isso, razoável esperar que, vindo o Governo à Guarda, alguém se lembrasse das pessoas que vivem para cá da linha imaginária onde começa o litoral. Das famílias que procuram uma habitação e encontram preços que parecem ter sido calculados para milionários. Do cabaz de compras que encolhe enquanto a fatura cresce. Dos pensionistas condenados a fazer contas até ao último cêntimo. Dos idosos que envelhecem na solidão de aldeias cada vez mais vazias. Dos estudantes que partem para Lisboa e descobrem que estudar fora de casa implica, antes de mais, conseguir pagar um quarto — tarefa que, em muitos casos, já exige quase um salário inteiro.
Esperava-se uma palavra sobre a inflação, sobre o preço dos combustíveis, sobre a botija de gás que custa mais do que devia e sobre o absurdo de, atravessada a fronteira, o mesmo consumidor encontrar em Espanha preços significativamente mais baixos. Esperava-se, enfim, que o primeiro-ministro se lembrasse de que o interior não é apenas uma coordenada geográfica no mapa administrativo do país, mas um território habitado por pessoas, com problemas concretos, contas para pagar e uma crescente sensação de que Portugal termina algures antes da A23.
Mas nem isso.
E depois houve a imprensa. Ou melhor, houve aquilo que dela se permitiu existir. O Governo decidiu que os jornalistas presentes teriam direito a duas perguntas — uma espécie de regime democrático em formato degustação — e, para cúmulo, as duas perguntas vieram de órgãos de comunicação nacionais. Os jornalistas regionais, aqueles que conhecem os problemas da terra, que acompanham diariamente as suas dores, os seus atrasos e as suas promessas adiadas, ficaram reduzidos à condição de figurantes numa conferência de imprensa realizada precisamente no território que deveriam poder questionar.
Mas a história ganha contornos quase surrealistas quando o jornalista da RTP, seguramente por indicação das chefias em Lisboa, gastou a pergunta de que dispunha para saber a opinião do Governo sobre as “birras” de Cristiano Ronaldo e a sua saída da Seleção.
É verdade: Ronaldo é o assunto do momento. E ninguém ignora a extraordinária capacidade do futebol para ocupar o espaço que, por vezes, a política deixa vazio. Mas que, depois de um Conselho de Ministros realizado na Guarda, perante um território que reclama acessibilidades, investimento, emprego, habitação, demografia, serviços públicos e respostas para a pobreza e o envelhecimento, a pergunta considerada digna de chegar ao Governo através do serviço público de televisão seja sobre Cristiano Ronaldo, é mais do que uma ironia trágica.
É um retrato.
Um retrato de um jornalismo que, demasiadas vezes, confunde o que é importante com aquilo que é ruidoso; que troca o essencial pelo instantâneo; que prefere a polémica do dia à pergunta incómoda que pode obrigar alguém a responder pelo país real.
Mas talvez seja essa a verdadeira tragédia: não Ronaldo ter deixado a Seleção, mas termos chegado ao ponto em que a saída de Ronaldo parece merecer mais atenção jornalística do que a saída silenciosa de milhares de pessoas do interior.
Porque essa, sim, é uma fuga que deveria inquietar-nos.
E essa não dá manchetes, não gera audiências e, sobretudo, não joga futebol.
O Governo veio à Guarda. A Guarda, essa, parece continuar à espera do Governo.

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Luís Baptista-Martins

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