«A liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de uma maneira diferente do que nós pensamos», dizia o Dr. João Gomes, figura incontornável da luta pela liberdade e democracia. Um nome, um guardense que bem se pode traduzir por grande e exemplar democrata, personalidade de vasta cultura e humanidade, advogado brilhante, orador apreciado; um homem sempre fiel aos valores que constituíram a sua ideologia democrática.
João Gomes, recorde-se, tutelou uma enorme atividade política, bateu-se pela liberdade, por princípios e ideias; esteve sempre na linha da frente dos interesses desta cidade, do distrito, do interior. Mesmo quando exerceu as funções de Governador Civil do Distrito não hesitava em discordar – sempre que a sua consciência e o seu amor pela Guarda assim o exigiam – das diretrizes políticas ou opções estratégicas que, na sua opinião, não serviam ou não eram as melhores para a Beira Serra; terminologia que gostava de usar e à qual dava relevo mediático no programa radiofónico “Reflexões Políticas”, emitido, durante alguns anos, na Rádio Altitude.
Em entrevista publicada no primeiro número do quinzenário “Notícias da Guarda”, que dirigimos, comentava a propósito das suas funções como Governador Civil que «a maior parte das pessoas vêm para estes lugares para se servirem e terem naturalmente de dizer sim ao Governo. Eu sou capaz de dizer não, se o Governo, para além de certos limites, ofender certos princípios que possam ofender não só a minha dignidade, mas também os interesses da gente da minha terra».
Ao mesmo jornal, em 1984, afirmava: «Para mim, a política é, acima de tudo, um ato de honra, de carácter e dignidade. Isso é que não vejo em muita gente. Há muitas pessoas que aproveitam a política para outros fins, prejudicando realmente as verdadeiras posições doutrinárias e ideológicas». Uma postura que reforçou, por várias vezes, aos microfones da rádio da sua terra, valorizando a importância deste meio, até porque a radiodifusão sonora portuguesa teve, como é público, um contributo de relevo na revolução de abril.
«A rádio terá sempre o seu lugar e o seu papel». Esta a convicção de João Paulo Diniz, um consagrado nome da rádio e uma voz da liberdade; com breves palavras evidenciou o papel deste meio de comunicação social num importante momento da história portuguesa; na noite de 24 de abril de 1974 colocou no ar – através dos Emissores Associados de Lisboa – a primeira senha do movimento dos capitães, ao anunciar «faltam 5 minutos para as 23 horas», seguindo-se a apresentação da música de Paulo de Carvalho, “E depois do adeus”.
«A música foi escolhida inicialmente quando fui abordado pelo capitão Costa Martins, da Força Aérea, e pelo Otelo Saraiva de Carvalho, com quem eu tinha estado na Guiné». Recordou-nos João Paulo Diniz em entrevista que nos concedeu no passado ano; quando o questionámos se as pessoas têm consciência da importância da rádio e do seu contributo para a revolução e subsequente afirmação da democracia, respondeu-nos: «Não sei se têm. Há uma coisa que me custa um pouco. É que tenho a sensação de que, hoje em dia, os jovens sabem muito pouco sobre o que foi o 25 de Abril». Daí acrescentar-nos ser «extremamente importante sensibilizar toda a população, mas em especial os mais jovens, para a importância» dessa data e de «todas as liberdades que nos permitiu. Liberdade sempre, obviamente, com a máxima responsabilidade. Uma e outra não se separam».
A Rádio é também memória e daí que tenha assumido particular importância a sessão de escuta coletiva, designada “Temos Povo”, que decorreu na Rádio Altitude no passado dia 25 de janeiro, e que aqui lembramos nestas anotações. Uma iniciativa que convidou a ouvir abril, os sons da primeira montagem radiofónica do Dia da Liberdade e que serviu de mote para algumas considerações sobre a realidade e importância da rádio na atualidade e para sublinhar, ainda, que «em 1974, a rádio era, provavelmente, o meio de comunicação social mais importante. O rádio estava no centro das operações dos capitães», como nos dizia Maria Inácia Rezola. A rádio estará uma vez mais presente na comemoração da passagem dos 52 anos após o 25 de abril de 1974.
Uma data indelevelmente ligada à Liberdade e à Democracia; entre estes marcos estão enquadradas importantes conquistas, valores e direitos que, durante décadas, estiveram submersos na prepotência de um regime totalitário.
Eleições livres, liberdade de expressão, poder local – recentemente revisitado na Guarda – liberdade de imprensa: toda uma terminologia que floresceu numa manhã de abril. Essa data representa um importante facto na História portuguesa contemporânea; a sua dimensão, contudo, não foi apreendida, por muitos, em toda a sua globalidade; noutros casos, as políticas e estratégias seguidas, os oportunismos registados contribuíram para um progressivo esmorecimento dos ideais proclamados, acentuaram um distanciamento de camadas sociais, traídas nas suas convicções e esquecidas nas suas realidades e anseios.
Consequentemente, o significado desta data foi-se afastando do pensamento e da prática quotidiana, pautada por outros padrões, comportamentos e atitudes; um quadro que não é original na história da nação… um facto histórico, complexo por natureza, desdobra-se em várias facetas, onde se entrelaçam aspetos políticos, económicos e sociais, refletindo a sua análise um cunho tanto mais acentuado quanto o seu enquadramento seja feito em termos de conjuntura ou estrutura.
Cinquenta e dois anos após abril de 1974, importa reter os ideais que animaram um movimento depressa convertido à escala nacional e abraçado por um sentir bem português, numa doação a que só a gente lusa se sabe entregar; sem se cristalizarem ideologias, dogmas ou extremismos. É fundamental que se apreenda o verdadeiro significado desta data, de forma a refleti-lo, a projetá-lo no presente, com o pensamento no futuro.
Abril foi o abrir de uma porta para o presente e para um Portugal europeu; interrogar o passado permitirá uma melhor compreensão do presente e permitirá aferir o rumo certo, as estratégias necessárias, as melhores soluções. Evocarmos a data de 25 de Abril de 1974 é assumirmos individual e coletivamente – sem nos circunscrevermos apenas a um dia marcado no calendário – os deveres que nos inspiram a democracia e a liberdade!…



