Fio de Prumo de Acácio Pereira: A Beira Interior não existe

Escrito por Acácio Pereira

Há ficções que, de tanto serem repetidas, procuram ganhar estatuto de realidade. A chamada “Beira Interior” é uma delas. Não corresponde a uma região com identidade própria, mas antes a uma construção administrativa artificial, desprovida de coesão sociocultural e de base territorial consistente.
Quem conhece o território reconhece a evidência: não há unidade orgânica. Existem, sim, duas realidades distintas – a Beira Alta e a Beira Baixa – com matrizes históricas, culturais e económicas diferenciadas. Dialetos, gastronomias, redes de mobilidade e fluxos económicos não convergem nem se complementam de forma estruturada. Não há sistema territorial integrado, há justaposição.
O referendo de 1998 confirmou essa ausência de legitimidade. A proposta de regionalização foi rejeitada de forma clara: no espaço associado à chamada Beira Interior o “não” atingiu 76,58%. Este resultado não pode ser lido como circunstancial: traduziu uma rejeição social à engenharia territorial proposta.
Apesar disso, houve depois dinâmicas políticas e institucionais para institucionalizar essa construção. Durante os ciclos governativos liderados por António Guterres e, mais tarde, José Sócrates, foram adotadas políticas públicas para reforçar a Universidade da Beira Interior (UBI) enquanto polo institucional relevante na Covilhã. Não se tratou de uma dinâmica territorial espontânea, mas antes de uma opção para reconfigurar equilíbrios regionais. O problema não reside na valorização de uma instituição, mas no facto de esse processo não ter sido articulado com outros polos, como a Guarda e Castelo Branco, contribuindo a fragmentação num território já de si carente de escala.
Essa lógica manifesta-se também ao nível da oferta formativa. O Instituto Politécnico da Guarda criou, por exemplo, a licenciatura em Mecânica e Informática Industrial, à qual a UBI respondeu com Engenharia Mecânica Computacional; o IPG avançou com Ciência de Dados e Inteligência Artificial, sendo seguido pela UBI com Inteligência Artificial e Ciência de Dados; o mesmo padrão verifica-se na área da Contabilidade, com replicação de ofertas. Em vez de concorrência saudável de ofertas alternativas, assiste-se a uma dinâmica de duplicação reativa que fragiliza o sistema em vez de o especializar.
Na saúde, a ULS da Cova da Beira, em articulação com a UBI, concentra especialidades, investigação clínica e médicos em formação, reforçando a sua posição académica e assistencial. Já as ULS da Guarda e de Castelo Branco mantêm serviços, mas com menor integração no ensino médico e de investigação, tornado o território assimétrico.
O resultado é que falta escala, interdependência funcional e coerência interna. As oportunidades de estruturar o território com visão estratégica estão a ser desperdiçadas. O futuro exige outra abordagem: cooperação entre polos, complementaridade funcional e integração em dinâmicas mais amplas, nacionais e ibéricas. Na orientação futura da Guarda, a prioridade é clara: o corredor atlântico que nos liga à Europa, e não um fechamento estratégico na Cova da Beira.
Uma região não se constrói por vontade política nem por afirmação institucional. Constrói-se a partir de identidade partilhada, fluxos reais e massa crítica. E isso, simplesmente, nunca existiu na chamada Beira Interior.

* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda e da Assembleia de Freguesia da Guarda

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Acácio Pereira

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