Opinião de António Ferreira: O estado dos portugueses

Escrito por António Ferreira

Portugal está bem, mas os portugueses sofrem dificuldades. A dívida pública diminui de ano para ano, a inflação está controlada, a Segurança Social tem superavit, tal como as contas do Estado, as maiores empresas apresentam lucros recorde e a economia é distinguida pela “The Economist” como sendo a que apresentou melhor desempenho em 2025, liderando o ranking anual que avalia o desempenho económico dos 36 países mais ricos do mundo. Só isto, de estar entre os países mais ricos do mundo, já deveria ser sinal de satisfação, mas o facto de sermos líderes em desempenho económico é ainda mais extraordinário. Não é?
Mesmo assim, os portugueses continuam a não ter filhos, sobretudo por falta de condições económicas, e emigram, à razão de mais de 64.000 por ano. Ainda por cima, emigram os licenciados e os trabalhadores altamente qualificados. Têm cada vez mais dificuldade em comprar ou arrendar casa e os preços, de casas e rendas, fixam-se em valores que há meia dúzia de anos consideraríamos absurdos. Os salários teimam em não subir, contrariamente ao custo de vida, a gestão pública do ensino e da saúde parece empurrar-nos para as soluções que o setor privado oferece. Dirão que não é bem assim, que pelo menos os funcionários públicos viram melhoradas as suas condições, e têm razão nesse aspeto, mas são os trabalhadores do setor privado que, em última instância, fazem funcionar o país e são responsáveis pelo bom desempenho da economia.
Perante este cenário, de dificuldades dos portugueses que fazem funcionar o país, que tem o governo para oferecer? Alterações ao Código do Trabalho destinadas a dificultar-lhes a vida, no trabalho e em casa, a forçá-los a trabalhar mais com menos retorno, a tornar-lhes o emprego mais precário e com menos garantias de futuro, a facilitar o seu despedimento quando as empresas não os quiserem mais, a fazer pender o peso negocial mais para o lado das empresas e menos para o dos sindicatos. Nas palavras da ministra, para “equilibrar” as relações laborais – esquecendo que um dos lados, o dos trabalhadores, tem sempre menos força e precisa da proteção da lei. Propõe também o governo alterações fiscais destinadas, segundo ele, a promover o acesso à habitação. Até agora, conseguiu que o preço de um apartamento médio se fixasse acima de 300.000 euros e de uma renda média, em Lisboa ou no Porto, acima, bem acima, de 1.000 euros. Tudo isto enquanto 30% do parque habitacional se mantém devoluto, à espera do melhor momento para aproveitar a atual vaga especulativa.
Ao mesmo tempo, e para ajudar ao excelente momento da economia portuguesa, as empresas dão lucro como nunca, ajudadas pela descida de impostos que o programa do governo prometeu e este tem vindo a cumprir parcialmente. A expetativa é que as empresas venham a converter esses lucros em melhores salários, em lugar de os distribuírem pelos acionistas. Margaret Thatcher, sabedora desse problema, propunha o «capitalismo popular», em que todos os ingleses seriam acionistas de empresas e receberiam por essa via o que não obtinham nos salários. Por cá ninguém fala disso, até porque nem em Inglaterra chegou a vingar a ideia. Continuamos com esse pensamento mágico, o de que, de alguma forma, o cidadão comum irá aproveitar os restos da boa fortuna das empresas e do Estado.

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