Opinião de António Godinho Gil: Ruis*

Leonardo da Vinci acreditava que a nossa missão divina é recriar, a partir do que a natureza nos transmitiu, uma segunda natureza, completando um trabalho inacabado. Para os que partilham essa crença, como é o caso do escriba, é risível a vaidade e o facciosismo. A recente cimeira na casa Branca, onde CR7 foi a estrela da companhia, dividiu opiniões e reacendeu paixões. Na prática, foi um jantar de negócios com um very special guest. Mas enquanto uns foram os habituais portadores da Trump Derangement Syndrome – TDS, outros limitaram-se à exaltação de paixões clubísticas, transpostas para uma encenação de natureza política e diplomática. Ou seja, uma posição primária, do tipo “se foi com o Trump, foi aviltante/maravilhoso”, ou “se o CR7 esteve na sala oval, foi o reconhecimento da grandeza do Sporting/é um saloio egocêntrico que já passou o prazo de validade e agora se mete na alta roda da política”. Só que a realidade não é assim tão fácil. Na prática, CR7 cumpriu exactamente a mesma função decorativa do malogrado rinoceronte que o rei D. Manuel ofertou ao papa Leão X, numa opulenta embaixada que enviou ao Vaticano, em 1515, liderada pelo meu conterrâneo Rui de Pina. O exótico bicho morreu afogado num naufrágio, ao largo de Génova. Mas o corpo foi recuperado e empalhado, chegando ao seu destino. O caso fez sensação em toda a Europa. Com base em desenhos que lhe chegaram, Dürer criou a célebre gravura infra, patente na National Gallery. Graças ao seu enorme prestígio, e não pelo seu exotismo, CR7 foi a figura que criou manchetes, desbloqueou reticências, branqueou consciências, insuflou vaidades. Segundo alguns crentes, terá mesmo transmitido a Trump o terceiro segredo de Fátima, ou, no limite, um recado de Varandas a Infantino sobre regras de arbitragem. Certo é que, no naipe de comensais, não figurava ninguém com privilégios de nascença. De Musk a Melania, de Trump a CR7, de Georgina a Rubio. Emigrantes, ou filhos de emigrantes que se saíram bem. Garotos pobres que triunfaram a pulso. Self made men que atingiram o zénite da glória, do poder e do dinheiro. O jantar foi a feliz concretização do sonho fundacional americano, de que todos nascem iguais. E na terra das oportunidades, com esforço e foco, qualquer um “chega lá”. O mundo assistiu a um conclave de triunfadores, de onde foi apagado qualquer traço aristocrático e qualquer sofisticação. Ou seja, os elevadores sociais da democracia a funcionar. Como se depreende, o episódio pode ser observado de várias maneiras e sujeito a diferentes malhas críticas. Que vão muito para lá do conforto clubístico, do patriotismo histriónico, ou da aversão/idolatria em relação a Trump ou CR7.
A entrevista de RAP a Marques Mendes, no último “Isto é gozar com quem trabalha”, merece algumas reflexões. Quando RAP convida políticos para o seu programa deveria assumir, sem medo, o papel de bobo da corte. E digo isto sem desqualificar a função. A tradição do bobo é muito rica e sugestiva. Quem não se lembra do “Rei Lear”? RAP devia ridicularizar os seus convidados. Mostrar-lhes, através da paródia, uma realidade que ninguém tem coragem de lhes segredar. Ser o seu conselheiro grotesco, mas fiável. O que vimos foi o contrário. Embora RAP entrasse com algumas provocações, MM nunca perdeu o fio à sua narrativa. Abusando do humor autodepreciativo, na questão da sua estatura física. Para MM, foi um momento especial na sua campanha, que RAP não conseguiu desmontar. Nem quando MM confessou que não era mole. E que um presidente deve colaborar nas funções do Estado, mas exigindo resultados. A alegoria genital não escaparia ao candidato Manuel João Vieira. Por falar nisso, já salivo só de imaginar o quadro, quando o RAP o convidar para o programa…
Coloco cada palavra na mesma luz e na mesma tonalidade de cinzento. Uma tonalidade algures entre a cor de um velho tapume e a cor de uma nuvem baixa. A diversidade é o meio onde cintila o meu espírito. A economia profundamente humana onde descrevo os meus personagens. Suspensos. Hesitantes. Amantes do jogo. Prisioneiros da cor do pormenor. Da vida derramada como aguarela. Onde os faço banhar numa bruma verbal delicadamente irisada. Seres encantadores e ineficazes. Criaturas bizantinas e patéticas. Que vão desbaratando uma existência provinciana. Encarcerados numa bruma de sonhos utópicos. Sabendo reconhecer perfeitamente o que vale a pena ser vivido. Mas atolando-se na lama de uma existência monótona. Idealistas inúteis. Sedutores por tédio. Heróis detentores de uma bela verdade humana. Fardo esse que não podem carregar nem evitar carregar. São personagens que tropeçam. Que tropeçam porque olham para as estrelas. Enquanto caminham. Que podiam sonhar, mas não governar. Que perdem todas as oportunidades. Que se furtam a qualquer acção. Que passam noites em claro. Concebendo mundos que não podem construir. São os Davids franzinos numa era de Golias rubicundos. São aqueles que nos podem resgatar. Sem condições. São eles os habitantes das paisagens desoladas. Dos salgueiros mortos nas bermas das estradas lamacentas. Dos corvos cinzentos, dilacerando os céus cinzentos com as suas asas cinzentas. Do vapor de alguma lembrança inesperada, emanando subitamente de uma banalíssima esquina da rua. Da penumbra patética. Da fraqueza encantadora. De todo um mundo cor de cinza, cor de rola. De partidas adiadas e regressos não anunciados. É deles que eu me nutro.

* No calendário vegetal celta, significa “Sabugueiro”

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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