1. Um bom romancista deveria começar por ler muitos relatórios de patologia forense. Onde a linguagem é depurada do mais ténue vestígio de subjectividade. Onde as palavras são despidas de qualquer conotação, de qualquer associação emocional. E onde as descrições dos factos são precisas, rigorosas e sem margem para dúvidas. O mesmo se diga das causas. Acaso sejam minimamente incertas, ou hipotéticas, deve-se sempre assinalá-las como tal. A segundo exercício é descrever uma realidade abstracta, como uma cor, um sentimento, um estado de alma, uma impressão, aplicando exactamente o mesmo método. Mas um poeta tem que estar disposto a ir mais além. Sem medo de detalhar as feridas e o sol a despontar por entre as nuvens. Transportar o método, não como um exigência estilística, mas como condição para dissolver a realidade vista pelo autor, e nada ficar para trás. É então que nasce o poema.
2. Detesto conversa mole. Os mais distraídos fazem-na equivaler ao icónico “small talk” dos anglo-saxónicos. Mas estão errados. Para os britânicos é uma arte, uma colecção de convenções pautadas pela cortesia, destinada a assegurar um módico de sociabilidade neutra e cordata. Onde ninguém é compelido a nada. Por cá é diferente. A conversa é mole, não por ser inconsequente, mas porque anseia desesperadamente por uma proximidade que não existe, mas implora retribuição. Em rigor, não há conversa, mas uma troca ocasional de vários solilóquios, mais ou menos fatalistas, mais ou menos garridos, mais ou menos exagerados. Uma ladainha auto centrada e inócua. Uma espécie de RSI da vida em sociedade. Mas que tem via aberta nas redes sociais.
3. Há muitos temas em que divirjo das bandeiras da direita nacionalista. Um deles é a glorificação dos Restauradores de 1640. A ideia de que, sem eles, não seríamos independentes. O problema desta tese é ignorar o que se passou 250 anos antes. E o que aconteceu então, perguntais vós, aos pulinhos, com o dedo no ar e prestes a tomar um ansiolitico? Foi a chamada crise dinástica de 1383-85. Efectivamente, foi este o momento fundacional da nação portuguesa. É certo que a secessão conseguida por D. Afonso Henriques criou uma entidade política nova, identificada com um território e uma classe senhorial com interesses comuns. Mas o reino assim criado tinha uma natureza muito volátil. Poderia facilmente ter sido absorvido, por conquista ou sucessão dinástica, como sucedeu com outros reinos peninsulares. E foi exactamente isso que quase esteve a acontecer quando D João I de Castela, por ser consorte de D Beatriz, filha de D Fernando, reivindicou a coroa portuguesa. Uma pretensão que colheu o apoio de grande parte da nobreza e do clero. Se não fosse a sublevação popular nas cidades, maxime Lisboa, o engajamento da nobreza de segunda linha, a liderança do Mestre de Avis, a mobilização no terreno de Álvaro Pais e o carisma de D. Nuno Alvares Pereira – uma figura decalcada dos condottieri, chefes militares ao serviço das cidades estado italianas de então – o Reino de Portugal teria sido facilmente incorporado no de Castela, pondo fim e uma experiência com 240 anos. Foi por via dos acontecimentos ocorridos nesses anos que Portugal adquiriu uma consciência nacional. Com a União Ibérica, em 1580, a situação era muito diferente. Portugal já tinha empreendido a saga dos Descobrimentos, criou um império marítimo, possuía uma cultura reconhecida em toda a cristandade. Em suma, era uma entidade política que atingiu a maturidade plena. Em 1640, graças a uma conjuntura favorável, à adesão do Duque de Bragança e a campanhas militares bem sucedidas, o golpe palaciano de Dezembro acabou por triunfar. O ponto é que, se foi possível retomar a soberania em meados do séc. XVII, isso já não terias sido possível em finais do séc. XIV. Daí a extraordinária importância da oposição política, militar e social às pretensões de D João de Castela. Um momento porventura fundador da nação portuguesa. Pelo contrário, em 1640, o país estava pronto, a qualquer momento, a pôr fim à União Ibérica, sem grandes convulsões sociais, ou hesitações. Pois já tinha a sua identidade consolidada. Foi em 1640, mas podia ter sido um século depois.Portanto, a haver um feriado com fervor nacionalista, deveria ser o dia 16 de Dezembro, data em que o povo de Lisboa, em 1383, reunido na câmara, aclamou o mestre de Avis Regedor e Defensor do Reino.
*No calendário vegetal celta, significa “azevinho”
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


