Na cidade da Guarda, houve 5.208 pessoas que votaram no partido Chega e, no distrito, 17.247 eleitores escolheram o partido de André Ventura.
Não acredito que todas estas pessoas considerem que a solução para o país é acabar com a democracia e voltar a um protofascismo. De igual forma, também não creio que haja, no distrito da Guarda, mais de 17 mil pessoas a defender os ideais desumanos que Ventura defende.
O que existe, em muitos casos, não é ódio nem ideologia, é frustração. É cansaço. É uma sensação crónica de abandono. São promessas feitas e repetidas por décadas, quase sempre esquecidas no dia seguinte às eleições. É o sistema que falha tantas vezes a tantas pessoas. É a injustiça que se acumula nos salários que não chegam ao fim do mês, as urgências que fecham à noite, as escolas que não têm professores, os transportes que não existem. E, um dia, esse desamparo encontra alguém que diz: “A culpa não é tua, é deles”. Alguém que aponta o dedo.
O Chega materializa em chavões um mal-estar complexo. Não resolve, mas canaliza. Não constrói, mas vocifera. Oferece indignação pronta a usar. E há quem, sufocado pela lentidão da política tradicional e ferido pela indiferença dos partidos do centro, se agarre a essa voz que tudo diz com raiva e nada proclama com responsabilidade.
Porém, compreensível não é o mesmo que aceitável.
A história já nos ensinou que o ressentimento coletivo é um terreno fértil para ideias perigosas. E, quando deixamos que o medo e o abandono ditem o voto, corremos o risco de abrir a porta à intolerância, à repressão e ao fim das garantias que a democracia, com todas as suas falhas, ainda assegura.
O erro está, em parte, em quem deixou o espaço vazio e falhou em dar respostas; em quem confundiu governação com gestão tecnocrática, distanciada das pessoas e dos seus problemas concretos. A política perdeu a coragem de imaginar e passou a administrar. A proximidade foi substituída por promessas eleitoralistas e, assim, se constrói o habitat ideal para o populismo prosperar.
Os eleitores não pedem milagres. Pedem habitação condigna, acesso à saúde, salários justos, uma escola pública que funcione, uma administração transparente. Pedem que os partidos, que aspiram a governar, se importem verdadeiramente com os problemas reais da vida quotidiana e que façam da política uma prática de cuidado e de justiça e não um palco de vaidades ou um jogo de rivalidades estéreis.
Quem acredita na democracia, que é o regime mais digno das sociedades que se querem evoluídas e humanistas, tem a obrigação de ir mais fundo. De escutar sem paternalismo e de compreender sem condescender. De voltar ao terreno onde o povo vive e sofre. A democracia precisa de reaprender a cuidar. A cuidar das pessoas, dos lugares e das promessas feitas.
O Chega não é solução para nada, nem para ninguém. É a expressão do que não está a ser feito. Combater o seu avanço exige mais do que alertas ou moralismos: exige presença; exige compromisso; exige política com substância, com justiça e com verdade.
O que está em causa não é só a sobrevivência de um regime. É a dignidade de quem nele vive. E, todos nós, queremos viver em liberdade e harmonia, por isso, há que acolher e dar resposta a este pedido de socorro feito por 1.345.689 portugueses.
Ouçamos, pois, este grito – não para o repetir, mas para o transformar. Com políticas que incluam, com gestos que reparem, com uma visão de futuro que volte a ser partilhada. A resposta ao desespero não pode ser a punição, mas a reconstrução. Porque quem se sente ouvido, respeitado e integrado não precisa de extremismos. Precisa de esperança.
E a esperança, essa sim, pode ser uma verdadeira forma de resistência.


