Quando dois corpos celestes orbitam à volta um do outro, interagindo apenas pela força da gravidade, é possível determinar com exatidão as órbitas dos dois a partir das leis do movimento de Newton. Tudo é previsível e de algum modo simples. Basta fazer as contas. O problema torna-se muito mais imprevisível quando há um terceiro corpo, tornando-se o sistema mais complexo e tendencialmente caótico. Se esse terceiro corpo for substancialmente mais pequeno que os outros dois, acaba por orbitar à volta de um deles e este à volta do outro, sem questões de maior. Mas, se esses três corpos celestes forem de dimensão equivalente, então sim, temos tendencialmente o caos e vai acabar por haver uma colisão e a destruição de pelo menos um dos corpos.
O sistema político português prepara-se, com o resultado das últimas eleições, para um caos que as equações da mecânica celeste não podem ajudar a resolver. Chega, PSD e PS são demasiados grandes partidos a gravitar no nosso parlamento. Dois deles, PS e PSD, são irmãos quase gémeos e pouco os distingue já, a não ser alguns tiques de linguagem. Com José Luís Carneiro, temos a direita do PS e a esquerda do PSD a falar a mesma linguagem e a apresentarem as mesmas propostas.
Há um corpo a mais neste sistema e falta determinar qual. A história não favorece muito as ambições futuras do PS. Os partidos socialistas europeus foram-se apagando, um atrás do outro. Já pouco resta do PS francês, ou do grego. A Península Ibérica parece mesmo ser já o último reduto do socialismo democrático. Nas últimas eleições, o PS ficou atrás da Iniciativa Liberal no voto dos homens jovens e atrás do Livre no voto das mulheres jovens. O que acham que isto augura?
Na semana passada, no “Público”, citando Henrique Raposo, Francisco Mendes da Silva perguntava: “A Esquerda somos Nós?”. Para que conste, estão ambos na área do PSD. Essa pergunta é feita, claro, na perspetiva do desaparecimento do PS e no regresso ao bipartidarismo, agora entre PSD e Chega. Não se admirem e olhem em volta: nos EUA, o Partido Republicano passou-se para a extrema-direita e o Partido Democrático ocupa sozinho o centro e o centro-esquerda.
Entre nós, o papel do PSD é de um camaleão da política: de direita ou extrema-direita por calculismo eleitoral, do centro ou do centro-esquerda quando convém. É por isso que vai ser muito mais resiliente do que o PS. Este tem sobre si demasiada carga ideológica e, nos tempos que correm, essa carga é pejorativa. Veja-se o que está a acontecer nos EUA às políticas de inclusão, diversidade e equidade: falar nisso é pedir para ser insultado; não tarda, é pior ser-se inclusivo do que racista. Ou então já lá estamos.
Os próximos tempos vão ser interessantes, mas há que ter bem noção do que aí vem. Se querem ver como seria o nosso sistema político se dominado pela extrema-direita, têm bons exemplos nos EUA ou na Hungria ou, pior ainda, na Rússia, e tomem nota do que acontece quando chegam ao poder: fazem de tudo para não ir embora, como fizeram Orban e Putin e tentou fazer Trump. Quanto ao PS, uma das soluções é mudar de nome, até porque resta muito pouco do socialismo original. O PPD mudou, não foi? Seja como for, há que ler os tempos que correm.


