Sociedade

Francisco de Pina inventou escrita vietnamita no século XVII e agora vai ser nome de rua na Guarda

Escrito por Sofia Pereira

Natural da Guarda, padre missionário rumou à Cochinchina em 1615, onde aprendeu, traduziu e ensinou a língua vietnamita, que hoje é a escrita oficial daquele povo

Francisco de Pina vai dar nome a uma rua na cidade da Guarda. A promessa aparece como forma de cumprir uma homenagem ao padre jesuíta nascido na Guarda no século XVI, em 1585.
Francisco de Pina foi estudar para Coimbra durante a juventude, quando entrou na Ordem dos Jesuítas. Em 1608 rumou à India com o objetivo de, mais tarde, ser missionário no Japão, mas nos entretantos ficou uns anos por Macau onde completou os estudos. Devido a conflitos no Japão, em 1615, Francisco de Pina, acabou por rumar à Cochinchina numa missão e lá, segundo conta António Morgado, professor de Filosofia aposentado e um dos principais impulsionadores das homenagens ao padre guardense, «Francisco de Pina encantou-se com a língua e dedicou-se a aprender, investigar, traduzir e ensinar a língua daquela localidade». É a ele que se deve a romanização da língua vietnamita através do alfabeto latino, permitindo que os próprios vietnamitas começassem a escrever e ensinar a escrita – o Quốc Ngữ – deixada pelo padre nascido na Guarda.
A escrita com hieróglifos chineses, mas lida em vietnamita, levava a que apenas um a três por cento da população soubesse ler e escrever. De acordo com António Morgado, Francisco de Pina utilizou «o abecedário latino com sinais diacríticos para traduzir os tons e sons daquela língua». Atualmente, quando olhamos para a escrita vietnamita, vemos «letras romanas, cheias daquilo que as pessoas pensam que são acentos em cima e em baixo das letras. Ora, a mesma vogal pode ter dois ou três acentos, e isso significa que essa letra tem tons diferentes conforme os sinais diacríticos», exemplifica o antigo diretor da Secundária Afonso de Albuquerque, que acrescenta que «esta língua não trabalha apenas com tons, era também de sons, é muito musical».
Com a romanização da língua, a percentagem de pessoas alfabetizadas aumentou exponencialmente, levando à democratização da escrita. António Morgado adianta que, há cerca de um século, «a escrita romanizada tornou-se a língua oficial do Vietname e, por isso, é que hoje são um povo muito agradecido à Guarda e têm um carinho muito especial por Francisco de Pina». O missionário nunca regressou à terra natal, tendo falecido afogado a 15 de dezembro de 1625 enquanto ajudava a resgatar pessoas de um barco naufragado. Quatro séculos depois, a Guarda vai homenageá-lo, como anunciou Sérgio Costa, presidente da Câmara Municipal, na quinta-feira, na sessão solene do encontro internacional “Francisco de Pina e o percurso do Chữ Quốc ngữ: Ponte Cultural entre o Vietname e Portugal”.
«Sejamos verdadeiros, durante muito tempo a Guarda não deu a Francisco de Pina o lugar que ele merecia por falta de conhecimento, e foram os vietnamitas que nos lembraram de quem ele era verdadeiramente, e hoje assumimos o compromisso de nunca mais voltar a esquecer», afirmou o autarca na ocasião, revelando que o nome do jesuíta será atribuído a «um lugar emblemático» da cidade. «O processo já começou. O Vietname escreve com as letras de Francisco de Pina e a Guarda vai escrever o nome de Francisco de Pina na sua cidade», assumiu. O encontro internacional dedicado ao padre guardense foi promovido pela Associação para a Promoção da Cultura Vietnamita (APCV), com o apoio do município. A esse propósito, a galeria de arte do TMG tem patente uma exposição de intercâmbio cultural e foi realizada uma mesa-redonda, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, com investigadores portugueses e vietnamitas sobre a influência de Francisco de Pina na génese e desenvolvimento da escrita romanizada da língua vietnamita.
Recorde-se que a Câmara da Guarda assinou recentemente um memorando de entendimento com a província de Gia Lai com vista à cooperação entre os dois territórios. O acordo destina-se a «aprofundar as ligações comerciais, o investimento, o turismo, a educação, a ciência e o intercâmbio cultural, criando novas oportunidades e contribuindo para o desenvolvimento eficaz e a longo prazo das relações entre Gia Lai [a segunda maior unidade administrativa do Vietname com cerca de 3,5 milhões de habitantes] e Guarda».
Em novembro de 2023, o município homenageou Francisco de Pina a título póstumo, com a inauguração de uma escultura colocada no espaço exterior da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Criada e oferecida por uma fundação vietnamita, a obra é constituída por um barco nas ondas do mar a evocar a caravela das viagens dos portugueses no Extremo Oriente.

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Sofia Pereira

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