A rádio continua a ter um papel fundamental na informação e com distinta flexibilidade na aproximação às pessoas, seja no meio urbano ou rural.
Aquando do recente apagão ocorrido no nosso país (e também em Espanha) foi, uma vez mais, percetível e expressivo o papel que a rádio desempenha em situações de catástrofe. A UNESCO, já na última comemoração do Dia Mundial da Rádio voltava a destacar este meio como um dos “mais confiáveis e amplamente utilizados no mundo.”
Foi também pertinente a anotação que a UNESCO divulgou a propósito da necessidade de definição, para as emissoras, de um plano de emergência climática (até porque a referida efeméride, como os nossos leitores devem estar recordados, foi subordinada ao tema “O Rádio e as Alterações Climáticas”); esse plano “deve incluir mapeamento pré-preparado de áreas de risco; listas de contacto de especialistas e autoridades para vários cenários de desastres; rotinas de resposta; instruções de segurança específicas para cada desastre natural”. Acrescentava que ele deverá contemplar e prever a manutenção de equipamentos necessárias para cenários de emergência, de modo a garantir fácil acesso a “kits” de sobrevivência e geradores para cortes de energia prolongados (uma necessidade a que há vários anos nos temos vindo a referir). O recente episódio que paralisou Portugal foi mais uma lição para o presente e para o futuro…
A disponibilidade de uma fonte alternativa de energia (através de geradores) fez toda a diferença, permitindo a milhares de portugueses receberem informação fidedigna através do “velhinho” rádio portátil ou no recetor dos automóveis. Falharam os telemóveis, os recetores de televisão ficaram a negro, as redes socias estiveram ausentes, mas a rádio esteve “no ar”!
A ocorrência do passado dia 28 de abril deve suscitar uma reflexão consciente a vários níveis, e também no plano do papel hodierno das rádios locais, mormente no seu apetrechamento técnico; isto para que, em momentos como estes, possam cumprir a sua função social, transmitindo a informação oportuna veiculada pelos competentes serviços e estruturas. Estas emissoras – com o devido apoio estatal para a aquisição dos necessários equipamentos – podem funcionar como autênticas antenas de proteção civil, reforçando a sua identidade e aprofundando a sua ligação com a comunidade local e regional, garantindo informação séria, serena, pedagógica.
Essa justificada e desejada proximidade da rádio foi, há duas semanas atrás, reforçada numa tese de mestrado defendida pelo jornalista António Sá Rodrigues, com inquestionável experiência nesta área.
“Como reinventar a rádio de proximidade a partir do caso das duas rádios locais mais antigas de Portugal sem alteração de designação – a Rádio Altitude (Guarda) e a Rádio Clube Asas do Atlântico (Santa Maria, Açores) – tendo em conta que as rádios locais se defrontam com novos desafios, decorrentes da globalização, assim como da rápida evolução tecnológica, que exige uma constante (re)adaptação ao atual ecossistema da comunicação social, e às múltiplas plataformas que afastam os públicos, em especial os mais jovens, destes meios de comunicação social de proximidade.” Foi o ponto de partida para este trabalho académico, onde se conclui que “a estratégia de reinvenção das rádios locais passa pelo incentivo à participação dos ouvintes na emissão diária, pela realização de programas ao vivo em espaços públicos e pela aposta na rádio digital e na Inteligência Artificial.”
Como evidencia aquele jornalista nas conclusões da sua tese, “a reinvenção passa por adaptar as rádios locais ao presente. Tirar proveito das tecnologias, estar presente no território. Manter contacto permanente com o auditório e monitorizar a audiência online, também devem ser desafios permanentes de quem dirige uma rádio local. Fazer mais e melhor rádio, apostar no profissionalismo e no refrescamento das vozes que fazem diariamente a emissão, devem igualmente merecer atenção, a par do esforço de diversificar a informação e a programação com conteúdos apelativos.”
O que vem ao encontro daquilo que também já defendemos nestas mesmas páginas de O Interior. António Sá Rodrigues afirma que a “rádio é presente, mas é também futuro”, uma opinião que subscrevemos, na certeza de que este meio deve ser valorizado e merecer o devido apoio de acordo com o trabalho – aferido pela qualidade – desenvolvido em prol da informação, da comunidade, do desenvolvimento social e cultural, da democracia. A Rádio deve continuar a ser uma voz escutada e apreciada todos os dias…



