Há artistas que nos obrigam a escolher um lado, não por causa da obra, mas por causa do contexto. Eduardo Malta é um desses casos. E digo isto com a tranquilidade de quem já olhou para a pintura antes de olhar para o currículo. Malta tinha mão. Tinha escola. Tinha um rigor descritivo raro, quase teimoso, como se o mundo fosse uma dívida que só se pagava com detalhe. Num século XX que aprendeu a desconfiar da “boa pintura” por achar que ela servia demasiadas vezes o poder, Malta manteve-se fiel à figura, ao retrato, à ordem e ao acabamento. E isso, por si só, não é crime. O problema é que, no seu tempo, a “ordem” não era apenas uma opção estética. Era um programa político com curadoria.
A questão ética começa precisamente aqui: como lidar com um artista de inegável qualidade técnica que se associou, com proximidade e vantagens, ao sistema de Salazar e ao aparelho cultural de António Ferro? No caso de Malta, não falamos de uma simpatia vaga, dessas que se inferem por frases soltas. Falamos de prémios atribuídos pelo Secretariado de Propaganda Nacional, condecorações, encomendas e uma presença que se encaixa demasiado bem na ideia de “arte oficial” de um regime que gostava de retratos porque os retratos fixam hierarquias. E fixar hierarquias era uma das especialidades do Estado Novo.
Depois há o dilema emocional, que é mais difícil do que o político. Porque basta olhar para o retrato de Amália — essa imagem que se entranhou no imaginário colectivo — para perceber que a pintura, quando é boa, entra-nos pela porta da frente sem pedir autorização à consciência. Amália, com origens beirãs, torna-se ícone nacional; Malta, covilhanense, pinta-a com a solenidade certa; e nós, espectadores, ficamos num lugar desconfortável: a obra é forte, mas a biografia pesa.
O mais fácil seria fazer uma das duas coisas que a nossa época adora: ou cancelar o artista com entusiasmo moral, ou absolvê-lo com a mesma pressa com que se diz “isso já passou”. Ambas as soluções são preguiçosas. A primeira porque troca reflexão por punição simbólica; a segunda porque troca história por amnésia voluntária. E a amnésia, convém dizer, também é uma forma de propaganda — só que retroactiva.
O que me interessa aqui é a terceira via, que é mais exigente: manter a obra, mas não a inocentar. Ver os quadros e, ao mesmo tempo, ver o sistema que os premiou. Reconhecer a qualidade sem transformar isso numa lavagem moral. Isto implica aceitar que a arte pode ser excelente e, simultaneamente, funcionar como instrumento de um tempo que preferíamos não romantizar. Implica também admitir que o modernismo não era só uma briga de ateliers; era uma disputa por liberdade de linguagem e, em muitos momentos, por liberdade política. Malta opôs-se ao modernismo com convicção, e isso não foi apenas uma preferência estética: foi um alinhamento com uma ideia de cultura “controlável”, “decente”, “disciplinada”, que servia bem um país vigiado.
Neste ponto, a pergunta que colocas é a única que vale a pena colocar, porque não tem resposta cómoda: devemos descartar a arte por causa do artista? Eu não sei. E desconfio de quem sabe com demasiada certeza. Mas sei isto: descartar a obra é perder uma peça importante para compreender o século XX português. E esquecer o passado para “apreciar em paz” é perder a oportunidade de aprender. Malta, exposto no Museu da Covilhã, é relevante precisamente porque nos obriga a esta tensão. É um artista que nos devolve a pergunta: o que fazemos com a beleza quando ela vem acompanhada por sombras?
Talvez a resposta esteja menos no “cancelar” e mais no “contextualizar”. A obra não precisa de ser escondida; precisa de ser lida. Um museu não é só um sítio para admirar: é um sítio para pensar. E pensar, neste caso, é olhar para a técnica, para o prestígio social do retrato, para os rostos escolhidos, para os prémios atribuídos, para o tipo de Portugal que estas imagens ajudaram a construir. Não para reduzir Malta a propaganda, mas para não fingir que a propaganda não existiu.
No fundo, a pergunta sobre Eduardo Malta é uma pergunta sobre nós. Sobre a nossa capacidade de sustentar duas ideias ao mesmo tempo: que a obra pode ser grande e o contexto pode ser grave. Que a estética não apaga a ética, mas também não é apagada por ela. E que, se queremos um interior culturalmente vivo, temos de ser capazes de olhar para a nossa história com maturidade: sem lamúrias, sem purgas, sem amnésias.
Se há algo a defender aqui, é isto: que a Covilhã tenha um museu onde estas contradições se possam ver e discutir. Porque uma cidade que só exibe o que é confortável é uma cidade que não cresce. E uma cidade que exibe também o incómodo — com honestidade — dá aos seus jovens a melhor herança possível: o direito de pensar.
Sugestões deste mês:
Filme: Terra Vil de Artur de Almeida Campos
Espetáculos: Festival Y
Docs de Apoio:
Duro, Rita (2016). O Museu Nacional de Arte Contemporânea sob a direção de Eduardo Malta. MIDAS – Museus e Estudos Interdisciplinares, 6. DOI: 10.4000/midas.1002. https://journals.openedition.org/midas/1002
abril, 2026 Romeu Curto



