Opinião de Pedro Fonseca: “Alma do Mundo”

Escrito por Pedro Fonseca

Em 1806, em Jena, cruzaram-se os caminhos de Hegel e de Napoleão. O filósofo alemão teve a oportunidade de ver o último grande imperador da história mundial ao vivo e a cores, nas vésperas da batalha com que este haveria de subjugar o reino da Prússia. Nesse mesmo dia, Hegel cristalizou o momento por escrito: «O Imperador – essa alma do mundo (Weltseele) – vi-o sair da cidade a cavalo em reconhecimento […]. É realmente estranho ver uma tal personalidade concentrada fisicamente num único ponto do espaço, montada a cavalo, enquanto o seu pensamento imperioso percorre e abrange o mundo inteiro».
Na filosofia, há um antes e um depois de Hegel. Na arte da guerra, há um antes e um depois de Napoleão. É isso que define as grandes personalidades históricas. Mas no caso do imperador francês, a sua relevância não se esgota no domínio militar. Também na política, há um antes e depois de Napoleão. Sobre as ruínas do Antigo Regime e por entre o caos do período revolucionário, Napoleão criou o Estado francês moderno. E, através dele, criou a nação francesa. A sua ação foi tão impactante que passou a servir de manual para muitos estadistas que, posteriormente, procuraram criar e moldar os seus próprios Estados-nação.
Na estratégia militar, Napoleão representa um ponto de viragem. Não porque tenha escrito um tratado equivalente à “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, mas porque do estudo das suas ações militares nasceram alguns dos melhores tratados alguma vez escritos sobre estratégia, assinados por Carl von Clausewitz e Antoine-Henri Jomini. Que maior consagração poderia ambicionar um general do que tornar-se referência não pelo que escreveu sobre a guerra, mas pela forma como mudou a própria arte de a fazer?
Os ensinamentos inspirados na ação de Napoleão continuaram a dominar o pensamento estratégico militar até ao aparecimento da bomba atómica. A partir daí, tudo mudou. A razão é simples: a guerra entre países deixou de poder ser pensada apenas em termos de poderio bélico e génio estratégico. A introdução da arma nuclear criou a possibilidade de destruição mútua assegurada, tornando potencialmente suicida um confronto direto entre países dotados desse tipo de armamento. Com efeito, a estratégia passou a ter de ir além da vitória militar clássica e a contemplar também o poder da dissuasão.
Por 2026, restarão poucas dúvidas de que a única garantia credível contra a agressão de uma potência nuclear é possuir também armas nucleares. Que o digam os ucranianos. Em 1991, herdaram da União Soviética o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Em 1994, através do Memorando de Budapeste, aceitaram abdicar dessas armas em troca de garantias de segurança e respeito pela sua integridade territorial por parte das grandes potências, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia (!).
Que o diga também Muammar Khadafi, que, em 2003, aceitou abandonar o programa líbio de desenvolvimento de armas de destruição maciça, incluindo o nuclear, em troca da retirada das sanções à Líbia e a sua integração nas principais organizações internacionais. Em 2011, forças rebeldes apoiadas pela NATO derrubaram o regime e capturaram-no, acabando por executá-lo.
Por fim, que o diga – mas noutro tom de voz – a dinastia Kim. A Coreia do Norte testou as suas primeiras armas nucleares em 2006. Nessa altura, como agora, o país vivia numa espécie de ostracismo da comunidade internacional e a maioria da população passava enormes dificuldades. O atual contexto internacional transformou essa obtenção de armamento nuclear numa jogada de mestre capaz de assegurar a sobrevivência do próprio regime. Depois da Venezuela e do Irão, é muito provável que a administração Trump realize uma operação ou investida militar em Cuba. Mas o mesmo não sucederá com a Coreia do Norte. O motivo é simples: Pyongyang possui armas nucleares.
Está já em curso uma nova corrida às armas. Os países que já possuem armamento nuclear vão incrementar os seus arsenais, enquanto outros procurarão integrar esse clube restrito. Agrava-se, assim, a desilusão de todos aqueles que acreditavam que o fim da Guerra Fria abriria as portas à universalização das democracias liberais, dirigindo o mundo para um estado em que a paz e as boas relações entre os povos seriam a norma.
Se o objetivo dos EUA e do Ocidente ainda for esse, então há uma lição política de Napoleão que importa recordar: para mudar o mundo, não basta poderio bélico e económico. Para que um país possa viver em democracia, é necessário que primeiro disponha de um Estado sólido capaz de suportar instituições democráticas. O imperador francês não liderava apenas exércitos. Napoleão personificava a expansão e consolidação dos ideais da Revolução Francesa, levando consigo a promessa de liberdade para os povos que ainda viviam sob o jugo do absolutismo monárquico. Ele transportava o sonho, mas também a estrutura de um mundo novo.

* pedrorgfonseca@gmail.com

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Pedro Fonseca

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