Desde a invasão da Ucrânia que se sucedem os anúncios de uma Nova Ordem Mundial. Dando como facto consumado o fim do unilateralismo norte-americano, uns antecipam o regresso a um bipolarismo (EUA e China), enquanto outros apostam na emergência do multilateralismo.
Nenhuma das previsões se deverá confirmar nas próximas décadas. Isto por um motivo muito simples: a hegemonia dos EUA não está sequer ameaçada, quanto mais terminada.
Para se disputar a hegemonia mundial com uma superpotência, é necessário ser-se também uma superpotência. Ora, atualmente, só os EUA gozam desse estatuto e, ao contrário do que muitos apregoam, nenhum outro país está sequer perto de os vir a acompanhar num futuro próximo.
Entre 1945 e 1991, os EUA e a URSS foram, em simultâneo, potências económicas, militares e tecnológicas. Além disso, ocupavam o centro de um campo gravitacional político-ideológico, exercendo influência sobre países de todo o mundo (Bloco Ocidental e Bloco Socialista). Mais ainda: cada um liderava uma aliança militar formal (NATO e Pacto de Varsóvia). Foi pela confluência de todos estes requisitos que os dois protagonistas da Guerra Fria se assumiram como superpotências.
A Rússia continua a ser uma potência militar, mas possui uma economia frágil e perdeu o comboio da vanguarda tecnológica muito antes do final da Guerra Fria. Com o fim do Pacto de Varsóvia, deixou de liderar qualquer aliança militar formal e a sua influência externa é pouco significativa.
A China, por sua vez, tem vindo a reforçar a sua posição enquanto potência económica, militar e tecnológica. No entanto, a sua influência político-ideológica é ainda mais reduzida do que a da Rússia e também não lidera nenhuma aliança militar internacional.
Alimentar este discurso de supremacia ameaçada interessa a Washington. Desde logo, fica mais fácil levar a cabo certas ações que, noutro contexto, seriam difíceis de justificar. Utilizam-se as tarifas como arma diplomática, penalizando países próximos da China e da Rússia e todos aqueles lhes tentem fazer frente. Exige-se o aumento dos contributos financeiros dos membros da NATO para se poder assegurar a defesa da Europa no caso de uma futura invasão russa. Procede-se ao sequestro do regime venezuelano por este estar a vender petróleo a Pequim e a Moscovo. Declara-se a necessidade de apropriação da Gronelândia sob pena de os chineses ou os russos o virem a fazer primeiro.
Com efeito, o que temos é a superpotência a reforçar a sua posição hegemónica.
Num mundo ideal, uma entidade supranacional credível asseguraria o cumprimento da lei internacional. No mundo real, prevalece a “lei do mais forte”.
O unilateralismo dos EUA está longe de ser perfeito, mas é infinitamente preferível a um mundo onde essa hegemonia é disputada por autocracias repressivas. Pelo menos para aqueles que prezam a civilização ocidental.
* pedrorgfonseca@gmail.com


