Esta cidade às vezes não existe. Deu à estampa mais uma notícia daquelas que nos remetem para uma espécie de western assim à moda do Tarantino, com personagens das que aparecem em filmes como “Os Oito Odiados”, “Sacanas Sem Lei” ou o “Django Libertado”. Só a nós é que ninguém nos liberta de tais personagens, ou pior, da vergonha de termos de as aturar cá pelo burgo. Concretamente, uma personagem bem nossa conhecida foi acusada de ter tentado matar à martelada um amigo. Não foi à facada, nem a tiro, por estrangulamento, atropelamento, ou com veneno, foi mesmo à martelada. Barato, rápido e simples. Se a vítima não fosse um amigo, nem quero pensar no que teria sido…
Pois bem, quando pensávamos que já tínhamos visto de tudo, eis que nos sai ao caminho mais uma historieta do burlesco, a cavalo numa data de documentos da IGAS, a Inspeção da Saúde, que vieram à superfície na última Assembleia Municipal da cidade e que são uma janela para a forma como as coisas vão funcionando por cá.
Uma determinada senhora que sempre usou a política para seguir em frente e que trabalhava na Câmara da Guarda precisava de mudar de vida, ou de poiso, que isto da política nem sempre nos corre a preceito. Queria ir para a ULS da Guarda, onde aliás até já estava o marido. A senhora, que era loira mas não era burra, manobrou à maneira e ganhou um concurso a uma antiga amiga do peito, assim como quando a Espanha nossa irmã e amiga nos enfia a faca nas costas e nos dá dez a zero no futebol. O problema é que ela tinha um vínculo qualquer à Câmara que era administrativamente incompatível com o lugar para onde queria ir. Queria manter esse vínculo, para o que desse e viesse. Assim, recorreu a um mecanismo que se chama “cedência por interesse público”, que é uma solução que permite que durante um certo período, creio que de 18 meses, a coisa não seja definitiva. Isto é, eu vou para ali, mas se as coisas me correrem lá ainda pior do que já me correram aqui, sempre posso voltar para cá desde que não tenha decorrido o tempo todo da tal cedência.
O problema é que este mecanismo precisa de aprovação do governo. O lugar para onde se quer ir tem de respeitar uma data de preceitos, por exemplo, a deslocação tem de estar prevista no Plano de Desenvolvimento Organizacional, provisionada no orçamento da instituição, etc., só para que se perceba. E isso leva tempo. Muito tempo. Não é um mecanismo formatado para quem tem pressa, está feito para quem não queira tomar decisões definitivas, isto é, não dá para se ter sol na eira e chuva no nabal. Uma espécie de casamento com um período à experiência. No caso em apreço foram 24 meses até ao OK final. Só que alguém que tinha o defeito de não ser inteligente como a senhora, esqueceu-se de que neste intermédio burocrático a ULS não lhe podia pagar. Então o que fazer? Inventa-se um protocolo de colaboração entre as duas entidades, que neste caso eram a Câmara Municipal da Guarda e a ULS, para vigorar enquanto o pau vai e vem! E vai daí, a Câmara da Guarda passou a pagar à tal senhora. Isso mesmo, a senhora trabalhava num sítio, mas recebia do outro! E tudo isto invocando-se o tal interesse público. Que no caso do interesse da Câmara ainda ninguém percebeu qual fosse, exceto o de poder livrar-se de ter de a aturar por lá, benefício que pelos vistos obteve até agora.
Alguém cheirou o esturro por trás disto tudo e fez uma queixa anónima, enviando o tal protocolo manhoso para a Inspeção da Saúde, que se pôs em campo e desmascarou uma série de coisas. Por exemplo, a tal senhora garantiu à IGAS que quem lhe pagava era a ULS, quando na verdade era a Câmara que o fazia. A garantia é aquela coisa que costuma fazer esquecer aos inteligentes que se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo. Mas há mais. Por exemplo, a senhora em causa tentou convencer a IGAS de que nem tinha tido intervenção nenhuma na marosca, quando afinal… ela também subscreveu o tal protocolo! Isso mesmo, assinado pelos três, a senhora, a Câmara e a ULS! A cerejinha no cimo do bolo foi a figura triste que o presidente da Câmara fez na tal Assembleia Municipal, a tentar convencer toda a gente de que é um tipo transparente, quando até confessou não perceber porque é que as coisas se passaram assim! E um chefe de divisão a confessar nas barbas dele que foi feito assim… só para se contornar a lei! A IGAS fala em fraude e mandou tudo para o Ministério Público. O Tarantino, esse, já pode voltar à Guarda, agora já está perdoado!


