Opinião de Jorge Noutel: A injustiça, a ganância, o louco e a catástrofe

Escrito por Jorge Noutel

O mundo irá sofrer com a grave crise económica desencadeada pela guerra no Médio Oriente.
As economias mais frágeis e dependentes de setores específicos, como o turismo, irão sofrer ainda mais. A inflação a que estamos a assistir determinará um planeta ainda mais desigual do que aquele que já existia e, por isso, mais sujeito a tensões e a desespero. Milhões que já sofriam com a fome, conflitos diversos, crises económicas, mudanças climáticas, ausência de cuidados de saúde e de educação, e desigualdades de todo tipo, vão despenhar-se na espiral caótica que já ameaçava tombar sobre a humanidade. As elites, julgando que escapam sempre a estes fenómenos, arriscam-se a pagar desta vez um preço que nunca julgavam poder ser-lhes cobrado.
Os mais ricos e poderosos tentam adquirir refúgios profundos para não serem atingidos pela enorme tempestade que se avizinha. Pressentem que o sistema vigente findou. Sabem que o mal vem de longe, mas que quem abriu as portas do inferno foi um povo globalmente inculto e crente nas promessas de um idiota que anunciava o advento de uma “América mais forte” à custa do resto do mundo. Tudo em vão, como a História ensina a quem souber lê-la. O “novo Cristo” não passa de mais um impostor que tem, como todos os outros que o antecederam, pés de barro. Desde logo, um passado indigno, escabroso, repleto de escândalos, negociatas sujas e imundas, que a todo custo esse povo procura desvalorizar. Algo parecido ao que o povo alemão fez com Hitler até ao fim…
A ideia de uma América mais forte está alinhada com a priorização dos interesses
americanos, em detrimento de compromissos internacionais, defendendo que o país precisa ser mais autossuficiente, seguro e poderoso. Para tal, o “novo Cristo” tem defendido o uso de tarifas comerciais para proteger a economia doméstica e para pressionar outros países, usando a política externa como ferramenta para tornar a América “mais rica” e “segura”. Não se coíbe de utilizar os poderosos meios militares que possui para impor a sua lei, a lei da força, e para saquear terras que não lhe pertencem. Basta que essas terras possuam os bens que possibilitem a tal “América mais forte”. Aumenta os apoios a outros assassinos, sempre com o mesmo objetivo: “ser o novo dono do mundo”. O conflito entre os EUA e o Irão, com Israel a fazer de pica-boi, irá produzir um choque económico global devastador caracterizado pela escalada dos preços da energia e pela ameaça de uma recessão mundial. Ditadores assassinos como Putin olham, deliciados, para o filme que lhes passa à frente dos olhos.
A História ensinou-nos, para quem a estudou, que, quando se misturam interesses económicos com a religião, incendeia-se um combustível explosivo. Quando o lucro se mascara de profecia ou de fé, qualquer ação é usada para validar a exploração e a destruição do outro. O resultado é quase sempre a perda da integridade ética e o aumento do sofrimento humano em larga escala. Quando a religião deixa de ser um guia ético para se tornar uma ferramenta de acumulação de poder, ela perde a sua essência e torna-se um instrumento de controlo, com consequências desastrosas. E o desastre está para breve. É impensável que tanta injustiça, dor e sofrimento não gerem ódio em proporção. De entre dezenas de milhões de pessoas a quem roubaram a terra, a quem mataram os filhos, a quem liquidaram o direito a uma vida, há de surgir alguém suficientemente lúcido, vingativo, organizado e paciente para orquestrar a vingança. Em tempos de tecnologia parametrizada, não há de ser impossível multiplicar o mal e a vingança por cem. Basta uma bomba atómica introduzida às escondidas numa grande cidade como Nova Iorque, Moscovo ou Londres para o caos mundial se instalar sem retorno. No dia em que um atentado terrorista matar 1 ou 2 milhões de pessoas, nunca ninguém mais se sentirá seguro em lado nenhum. A civilização esboroar-se-á como um baralho de cartas. Cada um desconfiará de todos os outros e, no fim, até de si mesmo.
Creio que o número de desesperados, injustiçados e descrentes é o maior de sempre. Não se perceber que quem nada tem a perder é apenas o subproduto do violento mundo em que vivemos é o caminho mais rápido para o desastre. Entregar o poder a quem vive nesse perpétuo desconhecimento é apenas o caminho mais rápido para esse suicídio coletivo. Aquilo que se pensa podermos ganhar hoje pela via da força é apenas aquilo que se perderá amanhã no dia do ajuste de contas. Ámen.

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Jorge Noutel

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