Opinião de Fidélia Pissarra: Uma vez Hotel Turismo, Hotel Turismo para sempre

Escrito por Fidélia Pissarra

Provavelmente (só provavelmente, porque nestas coisas é impossível haver certezas), a realidade depende mais da maneira como a encaramos do que dela própria. Será assim que nasceram os “se a vida te dá limões, faz limonada” desta e de outras vidas. Por isso não será descabido de todo pensar que o que, por estes dias, atormenta os guardenses seja mais por culpa dos próprios do que pela realidade que há muito desistiram de encarar: o passado, em vez de os nortear rumo ao futuro, persiste em enredá-los num romance sem princípio, nem fim. Ou seja, como não pode existir nada sem que, pelo menos, tenha começado, deixaram-se enredar – ou assim preferem – num romance inexistente entre eles e o bom do Hotel Turismo. Sim, porque namoros, ou outras relações que tais, entre Hotel e guardenses foi coisa de que nunca alguém ouviu falar. A maioria jamais lá entrou e, dado a razão da existência de hotéis, nem teria que ter entrado. A não ser que preferisse a bica tirada pelo senhor Dorindo à bica dos desaparecidos cafés Cristal, Mondego e Monte Neve e costumasse frequentar-lhe o bar. O que também, por si só, não configuraria enredo de romance algum. Ao contrário do que, durante um tempo, aconteceu com os ditos cafés e, antes deles, talvez tenha acontecido com o Cineteatro.
Ora, se com o desaparecimento desses (um transformou-se em espaço vazio, outro tornou-se um banco, depois farmácia e depois espaço sem préstimo, outro foi banco e depois loja de óculos e o último loja de roupa) ninguém considerou que mais mal viesse ao mundo, ou seja, à cidade, não se compreende muito bem esta obsessão com o edifício do Hotel Turismo. Ao fim e cabo, à semelhança dos anteriores e, antes deles, à de tantos outros edifícios e espaços da cidade, é apenas mais um que se deixou ultrapassar pelas circunstâncias. Tanto mais que, depois de ele entrar nesta aparente e, quanto a mim, irreversível decadência, outras unidades hoteleiras – até mais estreladas – surgiram na cidade, passando por ele sem, ao menos, lhe dizer bom dia ou água vai. O que bem poderá indiciar que, depois de 16 anos, já estará na altura de encerrar o luto e pensar em dar àquele edifício destino que diferente do hoteleiro em que, até à data, não convenceu ninguém. Mas, infelizmente, como vem ficando cada vez mais óbvio, somos mais dados a discutir o sexo dos anjos do que a pedir-lhes soluções, voluntariando-nos alegremente e ao som dos bombos para a incapacidade de sair disto.
Se assim não fora, a nossa catedral não estaria rodeada de escombros que já ninguém vê, no Largo João de Deus não haveria um edifício inacabado há mais de cinco décadas, na Rotunda da Luz não permaneceriam os restos do antigo matadouro, na Batalha Reis não sobreviria um projeto interrompido e por aí fora. Mas claro que enquanto andarmos entretidos com o belo do Hotel Turismo, para nosso e vosso descanso, não precisaremos de nos incomodar com mais nada.

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Fidélia Pissarra

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