Opinião de Diana Santos: A ponte de Lourenço iluminada por Tolentino

Escrito por Diana Santos

O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) atribuiu o prémio Eduardo Lourenço 2025 ao Cardeal D. José Tolentino de Mendonça, numa comunhão feliz de pensamento(s). Momento que, embora merecedor de especial destaque, foi condensado nas celebrações do 826º aniversário da cidade da Guarda, num espaço restrito e pequeno demais para o público em geral. O Teatro Municipal responderia melhor a este auge de cultura, que deve ter passado despercebido a muita gente.
Tolentino, nomeado Cardeal pelo Papa Francisco em 2019, é, para além de membro de diversas Congregações e Dicastérios, o Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano. Com um percurso académico, cultural, literário e episcopado absolutamente notório e de excelência, o Cardeal D. José Tolentino de Mendonça é das figuras mais relevantes da cultura portuguesa contemporânea.
A presença de Tolentino na Guarda não deve(rá) ser encarada como um mero ato protocolar. Deve ser uma reflexão para o encontro com o futuro. A vinda de Tolentino, que nos ensina que a poesia abre um «lugar de respiração onde o humano se reencontra consigo», trouxe-me, como me trazem todos os seus textos, uma claridade interior. A sua palavra, que é sempre caminho, pergunta, inquietação e ternura, acorda em nós a necessidade de olhar mais fundo, de escutar mais devagar, de compreender que a cultura não se limita ao que sabemos, mas ao que somos capazes de inteligir.
Ao distinguir Tolentino com o prémio que homenageia Eduardo Lourenço, o CEI junta, lado a lado, dois viajantes do espírito. Lourenço, que tanto refletiu sobre a condição portuguesa, lembrava-nos que viver é interrogar-se, que uma cultura que não se pensa a si mesma adormece. Tolentino, por sua vez, recorda-nos que a espiritualidade, seja ela religiosa, poética ou simplesmente humana, é um gesto de abertura ao infinito que cabe no coração. Um ensina-nos a desbravar os labirintos da identidade; o outro convida-nos a alargar a interioridade para além das fronteiras visíveis. Ambos, cada um à sua maneira, são cartas de navegação para um país que procura ainda o seu centro.
A Guarda, com a altitude que lhe molda o horizonte, poderia (e deveria) ser a cidade que mais plenamente acolhe este encontro, porque é uma cidade próxima do céu, próxima de Deus, próxima da escuta. Porque aqui o silêncio pode ser luz. Porque as pedras antigas da Sé, as ruas estreitas, o vento que passa rápido e frio pelo adro, tudo parece disposto a ouvir uma palavra essencial. A Guarda tem em si a vocação de ser um lugar de espiritualidade e cultura. Falta, talvez, acreditar mais neste desiderato. Falta projetá-lo e persegui-lo com coragem.
Entre Lourenço e Tolentino ergue-se uma ponte luminosa, que a Guarda tem a rara oportunidade de atravessar: a ideia de que uma comunidade cresce quando cultiva, simultaneamente, a lucidez e o mistério. A razão e o espanto. A crítica e a contemplação.
Por isso, mais do que celebrar a distinção que foi justa, necessária e belíssima, importa escutar o que ela pede à cidade. Que se torne casa de pensamento. Que abra mais portas ao encontro. Que não tema os grandes gestos culturais. Que saiba reconhecer, no que é pequeno, a semente de um futuro mais vasto.
Porque a Guarda pode ser, se o quiser, uma cidade onde a cultura respira alto e onde a espiritualidade encontra morada. Um lugar onde Lourenço e Tolentino continuem, mesmo ausentes, a ensinar-nos que pensar é também um ato de amor. E que elevar o espírito é a forma mais profunda de construir uma cidade.

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Diana Santos

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