Opinião de António Ferreira: Um tiro no porta-aviões

Escrito por António Ferreira

Trump acha que os seus aliados da NATO não gastam o suficiente em defesa, que não precisa deles para nada, que até poderá aplaudir se os que não gastam o suficiente forem atacados. Trump despreza tanto os seus aliados que pondera acabar com a NATO ou não respeitar a obrigação de defesa recíproca em caso de ataque a um dos membros. Para além de que não pediu a opinião da NATO quando decidiu atacar o Irão.
Isso era ontem, que hoje Trump exige a proteção dos navios da NATO aos petroleiros que pretendem passar pelo estreito de Ormuz. E se isso não acontecer, diz ele que irão passar-se «coisas muito más para a NATO». Alguma da direita europeia pensa o mesmo que ele, embora na sua maioria se mantenha calada ou esteja até abertamente contra. Oficialmente, então, ainda ninguém se chegou à frente com propostas de apoio naval à navegação no estreito.
Uma das razões é que o problema do fecho de Ormuz, sendo gravíssimo, afeta sobretudo a Ásia, pois passa por ali a maior parte do petróleo destinado a essa região. O bloqueio afeta o seu abastecimento de energia, mas também de fertilizantes produzidos com derivados do petróleo, o que pode ter como consequência uma crise alimentar. Seriam por isso esses países que teriam de garantir a segurança da navegação, e Trump já tentou pressionar a China nesse sentido. O Irão, por seu lado, já disse que os navios dos países amigos nada têm a temer mas isso não tem ajudado a suster a subida dos preços.
Outra razão é que já toda a gente percebeu, mas não Trump, que a escolta dos petroleiros por navios de guerra não é solução. Os ataques iranianos vêm de terra, de centenas de quilómetros de distância, por intermédio de mísseis e drones (eventualmente guiados por informação russa) contra os quais as fragatas e os contratorpedeiros pouco podem fazer. Esta ideia de Trump, por isso, está ao nível da sua “cura” da Covid, quando aconselhou como terapêutica a ingestão de desinfetantes. Os navios a enviar pela NATO apenas iriam aumentar o número de alvos sem oferecer a segurança necessária para os petroleiros poderem passar pelo estreito.
É cada vez mais evidente que esta guerra foi desencadeada à pressa por gente mal preparada, que não tinha uma ideia sobre as suas implicações nem como iria terminá-la, e que pelos vistos nem se deu ao trabalho de olhar para um mapa antes de começar as hostilidades. Se o tivessem feito, teriam verificado que o território a norte do estreito é iraniano e que é impossível garantir a segurança da navegação ali, e em geral no Golfo Pérsico, sem colocar tropas em terra. Mas isso ninguém quer, nem o Trump.

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