Opinião de Albino Bárbara: É mentira, é mentira, é mentira sim senhor

Escrito por Albino Bárbara

O título não é meu. É do saudoso Arlindo de Carvalho e, muito sinceramente, não sei se a mentira tem perna curta ou, segundo o Zé Povinho, “mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo” e se corre bem mais depressa que a verdade. Sei que o Dia Mundial do Direito à Verdade, instituído pela ONU, é comemorado a 24 de março e oito dias depois (hoje) chega a verdade da mentira, ou melhor, o dia em que para ela «ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade».
Aleixo entendeu assim, Kant preferia a proibição, Nietzsche acrescenta a parte da sobrevivência, Maquiavel diz que é ferramenta política legítima, Diderot fala na psicologia da natureza humana, Garcian em prudência, Crowley de pensamento falso sendo toda a falsidade verdadeira, Hanna Arendt como ameaça à democracia, Eubulides questiona se quando um homem mente, afinal, está a dizer a verdade e, seis séculos a. C., encontramos Epiménides, que com o seu paradoxo tornou-se o pai da mentira.
E se o rei continua a desfilar nu, ao filho de Geppetto todos os dias lhe cresce o nariz, percebendo que o melhor mesmo é dar uma vista de olhos pelos burantinos, bem instalados no sítio do pica-pau amarelo e que aos poucos vão impondo as regras de funcionamento do sistema.
Assim: o Donald mente ao Trump. O Trump mente ao Vladimir. O Vladimir mente ao Benjamin. A Ursula mente ao António. A Christine mente à Georgieva. O Jaquim mente ao Sarmento. O Paulo mente ao Rangel. O Nuno mente ao Melo. O Fernando mente ao Alexandre. O Leitão mente ao Amaro. A Ana mente à Paula. A Maria do Rosário mente à Palma e o Luís mente ao Gauchinho Voador, ao João salsicha, ao Zé da Truta, à mamã Gothel, ao Scar, ao Bafo-de-onça, ao Tonho nabo, fazendo com que os príncipes das marés se transformem nos príncipes do nada.
E depois ainda temos por cá uns palissientos de verdade distorcida e mentira descarada, os tais que conspurcam ainda mais o sistema sempre com o contributo de um grilo falante, a que agora se junta um coelhinho, proveniente do albergue laranja, mais um cachorro azulado, os rouba pepinos, limões, alhos, cebolas, roupas, malas e outros tantos objectos de cariz sexual, tolerantes apenas ao giro das cores (Newton, já no século XVII, tinha razão) e, ao som dos Doble V, escutam a “pura droga sin cortar” num sucesso dos Violadores del Verso.
Hoje é dia 1 de Abril. Vamos divertir-nos: dar notícias, vender estórias, escutar alertas:
A baixa significativa dos combustíveis e da botija do gás, que sempre vai ficar ao preço de “nuestros hermanos” e, deixando o Luís trabalhar, teremos o salário e a pensão mínima a subirem, já a partir do próximo mês, muito acima dos 1.000 paus e a prestação da casa a ir para menos de metade.
Aqui chegados é tempo de fazer um paralelismo perfeito com as antigas petas do dia das mentiras, bem mais inocentes e tão bem contadas aos microfones da Rádio Altitude pelo António Emílio Aragonês, que faziam as delícias dos ouvintes. Só por curiosidade, dentre de meses, o “Toninho” completa as bonitas 92 primaveras.
Neste espectáculo do dia de todas as mentiras a culpa é sempre do enfarruscado lucifer, que deixa a responsabilidade nas mãos da fada-madrinha, onde muitos galifões de crista continuam a achar que a mentira repetida vezes sem conta irá tornar-se verdade, não percebendo, lá do cimo da sua nuvem imperial, que há e haverá sempre uma linha de separação entre a mentira e a verdade. Pois é… Não façam de nós parvos.
Fixemo-nos novamente no sábio poeta de Vila Real de Santo António: “Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo/calai-vos que pode o povo/querer um mundo novo a sério”.

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Albino Bárbara

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