Agora, para algumas cabeças, aparentemente muito pouco iluminadas, o maior problema da pobreza será o de existirem pobres. Acreditam – e bem – que acabando com os pobres, deixa de haver pobreza. Bem, até aqui, todos concordaremos. O que já não acontecerá quando, essas mesmas cabeças, querem atribuir aos próprios a culpa da sua indigência. Aceita-se que não gostem de pensar e falar de coisas difíceis, mas chegar ao ponto de achar que alguém é pobre por opção, é que já será um bocadinho de mais. Não se pode acreditar que haja quem acorde de manhã e decida que vai ser pobre. Ninguém, no seu perfeito juízo, se lembraria de uma coisa destas, mas lá que alguém se lembrou, lembrou. Num saltinho de pardal, os pobres terão passado de condenados à pobreza, a condenados por pobreza. Não que isso alguma vez tenha servido, efetivamente, para tirar alguém dessa condição, mas lá que convence muita gente – principalmente, quem, continuando a sê-lo, já não se consideram tão pobre como isso – de que a pobreza é uma consequência da própria inépcia e preguiça, convence.
Tanto assim é que, para acabar com a pobreza nacional, os portugueses decidiram arrepiar caminho. Desta feita, propõem-se acabar com o abono de família, com a ação social escolar, com a isenção de taxas moderadoras na saúde, com a tarifa social de eletricidade e com a tarifa social de gás. Talvez assim, quem não tem querido sair da pobreza a bem, o faça à força e, no que à pobreza diz respeito, ficaremos resolvidos. Está-se mesmo a ver que, sem apoios sociais, não há pobre que resista. Mas, se resistir, também não há problema. Deixamos vir uns imigrantes altamente qualificados que logo lhes mostram como sair dessa vida. Quando chegarem os doutores imigrantes, para apanharem as batatas e construírem os muros, os telhados e as paredes, já os ensinam. Enquanto assentam tijolos, orientam a obra e, depois de apanharem as batatas, vão cozinhar o jantar que encomendámos para no-lo entregarem em casa, através de uma dessas empresas que recrutam imigrantes, precisamente, com o intuito de que nos sirvam para alguma coisa. Que um doutor há de perceber de tudo. Incluindo a maneira de deixar de fazer o que veio fazer pelo valor de um ordenado mínimo, para passar a fazê-lo por meia dúzia de ordenados.
Ides ver como, em menos de um ai, conseguirão ser promovidos ou encontrarão melhor emprego. Depressa deixarão de ser pobres. Calhando, até deixarão de ser imigrantes. O que nem será muito difícil. Pois, como bem sabemos, em assuntos de meritocracia, inclusão e bons empregos, ainda está para nascer quem nos apanhe. Assim como ninguém nos apanha em “política de imigração regulada e humanista”. Sempre que há dificuldade em cumprir com algum direito fundamental, basta lembramo-nos de ignorar o bom do direito e passar, de imediato, à luta contra a xenofobia e a discriminação. Aliás, em situações menos óbvias, nada como a boa da “luta” para evitar maiores contrariedades: cala e aquieta qualquer um.


