Na última edição de O INTERIOR escrevi sobre «a fome como arma de guerra» em Gaza. E sobre a tragédia do povo palestiniano e a necessidade de o mundo reconhecer a opção “dois estados”, para a região (o estado de Israel e o estado da Palestina, nomeadamente incluindo a região destruída de Gaza).
Entretanto, nos últimos dias, os números da tragédia não param de crescer: cerca de 55 mil mortos, dos quais quase 20 mil crianças, mais de 120 mil desaparecidos e a fome a alastrar – milhares de crianças subnutridas e milhares de pessoas sem acesso a comida ou água. A estratégia da fome como arma de guerra, que Israel desenvolveu nas últimas semanas, é agora evidente nas imagens de horror que nos chegam de pessoas que morrem à fome ou crianças esqueléticas e deformadas depois de dias esfomeadas.
Não podemos esquecer a crueldade de 7 de outubro, e a forma como o Hamas chacinou e matou pessoas indefesas, como ignição do terror a que assistimos. E o facto de o Hamas manter reféns, que são o argumento vil para Netanyahu continuar um caminho de destruição e morte.
O conflito que nasceu com o nascimento do próprio estado de Israel, é um conflito natural, que desde 1948 sempre foi alimentado por disputas religiosas e culturais incompreensíveis, mas que agora foi elevado a um patamar inesperado, inaceitável e trágico. Um conflito que não devia ter começado e que urge parar.
Como escrevi no último Editorial, «Gaza, hoje, não é apenas e só mais um território cercado e totalmente destruído. É cada vez mais o lugar onde a defesa da Humanidade parece ter sido enterrada de vez sob os escombros juntamente com os milhares de vidas perdidas». Mas a Humanidade tem de olhar sobre os escombros de Gaza.
Se há poucas semanas, Portugal titubeava ou não assumia uma posição clara sobre o eventual reconhecimento da Palestina, nos últimos dias houve uma relevante evolução do estado português sobre um caminho de reconhecimento da chamada solução dos dois estados. Ainda não temos uma posição clara sobre esse reconhecimento, como o fez Espanha, Noruega ou até a França, mas, seguindo o exemplo de vários outros estados, como o Reino Unido ou o Canadá, Portugal evoluiu para o reconhecimento do estado da Palestina. É um caminho importante. A autodeterminação dos povos tem de ser reconhecida. E, muito para além das opções, gostos pessoais ou sensibilidades, os povos têm direito a viver nas suas terras e o povo palestiniano (como o povo judeu) tem direito a viver na sua terra, ainda que para isso seja necessário entendimentos e concessões de todas as partes.
Entretanto, a forma violenta como Israel continua a massacrar Gaza leva a que por todo o mundo o povo judeu vá sendo cada vez mais odiado. A crueldade em Gaza ainda tem alguns admiradores no mundo, cada vez menos, e ainda muitos procuram defender a posição israelita, mas a agenda do primeiro-ministro Netanyahu parece ser a principal razão para a tragédia continuar. O mundo não pode permiti-lo. A irrelevância da ONU tem de ser contrariada e as Nações Unidas devem ser o palco de aproximação das partes, para negociar a paz e procurar soluções de futuro para a região. Negociar a paz é a obrigação do mundo, em nome da Humanidade.


