Editorial de Luís Baptista-Martins: Precisamos de uma revolução

«A população da região não pode continuar a olhar para o lado e a ficar calada perante tragédias como a dos incêndios do verão passado ou o ostracismo a que há muito está votada – enquanto os nossos filhos partem por não haver oportunidade de ficarem na nossa terra cada vez mais pobre e atrasada»

O Editorial da semana passada, modéstia à parte, devia ser de leitura obrigatória para quem vive preocupado com o futuro da região. “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” (https://www.ointerior.pt/opiniao/editorial-de-luis-baptista-martins-portugal-e-lisboa-e-o-resto-e-paisagem/) versava, particularmente, sobre três assuntos: o primeiro-ministro ter anunciado mais um adiamento da regionalização – necessária para ser dada uma oportunidade de desenvolvimento ao interior do país (o poder central e macrocéfalo de Lisboa não quer saber do resto do país para nada, com a regionalização era aberta a possibilidade, pelo menos, de tratarmos da nossa vida e do nosso futuro); o facto de a Região das Beiras e Serra da Estrela ser a terceira comunidade intermunicipal mais pobre do país (só atrás das CIM’s do Tâmega e do Alto Tâmega – há 10 anos, o distrito da Guarda ainda estava à frente dos distritos de Bragança, Beja e Portalegre – triste consolo, mas era menos pobre) sendo hoje a terceira região mais pobre do país; e o aumento em 5% das vagas no ensino superior no próximo ano letivo – o que irá permitir que as universidades e politécnicos de Lisboa, Porto, Braga, Aveiro ou Coimbra recebam a partir do próximo ano letivo ainda mais alunos ficando os politécnicos do interior vazios («o Ministério da Educação, Ciência e Inovação vai ser o coveiro» do Politécnico da Guarda e de todos os politécnicos do interior). A esta medida inacreditável e que contraria todos os pressupostos de correção de assimetrias e descriminação, acrescentar que o Ministério vai também aumentar sobremaneira o valor das bolsas para estudantes deslocados em Lisboa.

Se mais razões não houvesse, as que atrás se referem provocariam um tumulto ou mesmo um levantamento popular em qualquer sociedade que se preze. É verdade que só nos movemos ou preocupamos por questões mais próximas, como a saúde, mas a população da região não pode continuar a olhar para o lado e a ficar calada perante tragédias como a dos incêndios do verão passado (e dos verões anteriores) ou o ostracismo a que há muito está votada – não é o despovoamento per si, é a desertificação dos nossos territórios, enquanto os nossos filhos partem por não haver oportunidade de ficarem na nossa terra, na sua terra, cada vez mais pobre e atrasada.

E estava este editorialista a ponderar escrever um texto bonito sobre o Natal, as crianças, etc., e eis que temos mais um motivo de indignação: o Hotel Turismo da Guarda, encerrado há 15 anos, vai continuar abandonado (ler www.ointerior.pt/arquivo/para-alem-do-fim-do-hotel-de-turismo/).

Votos de Boas Festas a todos os leitores, amigos e clientes.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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