Desporto Entrevista

A estratégia por trás do Grande Prémio Internacional Beiras e Serra da Estrela

Escrito por ointerior

Entrevista a Carlos Santos, Diretor de ProvaP – Como nasceu o GP Internacional Beiras e Serra da Estrela?

R – O GP Beiras e Serra da Estrela nasceu quase como um desafio, quando surgiu a possibilidade de integrar uma etapa do Grande Prémio de Castilla y León em território português, aproveitando toda a cooperação transfronteiriça que a AMCB desenvolve há mais de 25 anos com Espanha e os territórios da Raia. Esse desafio acabou por despertar uma ambição maior: criar uma prova própria, capaz de afirmar este território no panorama internacional do ciclismo e utilizar o desporto como ferramenta de promoção territorial. O que começou como uma ideia ligada a uma etapa transfronteiriça transformou-se hoje numa prova internacional UCI 2.1.

P – A prova evoluiu muito desde a primeira edição?
R – Claramente. No início existia muita incerteza. Fazer crescer uma prova desta dimensão no Interior, num território de baixa densidade e longe dos grandes centros mediáticos do ciclismo, obrigou literalmente a “pedalar muito”. Foi precisamente com esse trabalho de persistência, pedalando mais em cada edição sustentada numa estratégia cada vez mais exigente, que fomos construindo credibilidade edição após edição. Cresceu o número de equipas internacionais, aumentou a notoriedade da prova e consolidou-se uma identidade muito própria associada às Beiras e Serra da Estrela, à dureza do território, às paisagens e à autenticidade da região. Hoje o GP já é reconhecido pelas equipas como uma das provas mais importantes do ciclismo nacional.

P – Continua a existir a ambição de reforçar a dimensão transfronteiriça da prova?
R – Sim, essa ambição continua bem presente. A cooperação transfronteiriça faz parte da identidade da AMCB e deste território e esteve na génese deste projeto. Gostaríamos muito que no futuro fosse possível integrar etapas em Espanha, criando um verdadeiro grande prémio que conseguisse promover conjuntamente os dois lados da fronteira. Isso permitiria reforçar ainda mais a internacionalização da prova e consolidar uma visão integrada deste território, que partilha património, cultura, gastronomia, paisagem e desafios comuns.

P – O GP é hoje mais do que uma prova de ciclismo?
R – Claramente. O ciclismo é a base do evento, mas o objetivo vai muito além da componente desportiva. O que procuramos é promover, valorizar o território e chamar a atenção para os desequilíbrios que ainda existem entre organizar grandes eventos no Interior ou no litoral. O Interior precisa de iniciativas que valorizem o património, a cultura, as gentes desta região e a qualidade de vida, mas também de projetos capazes de atrair pessoas, captar investimento e mostrar oportunidades económicas e empresariais. O GP pretende afirmar-se como uma verdadeira plataforma de marketing territorial, associando o nome das Beiras e Serra da Estrela a um evento internacional capaz de funcionar como motor económico para o turismo e, simultaneamente, como palco de consagração desportiva para atletas, equipas e patrocinadores. Quando a prova passa pelas aldeias históricas, vilas, serras e paisagens naturais, estamos a mostrar um território com autenticidade, potencial e capacidade de futuro.

P – A prova pode ajudar também a promover o cicloturismo?
R – Sem dúvida. Esse é tambem um dos caminhos mais interessantes para o futuro. Os percursos criados ao longo das etapas têm enorme potencial para serem trabalhados numa lógica de cicloturismo e experiência territorial. Gostaria muito de ver estes trajetos associados a hotéis, alojamentos e agentes turísticos, permitindo que visitantes e apaixonados pelo ciclismo pudessem percorrer estas etapas ao longo do ano, em bicicleta convencional ou elétrica. O GP pode ser o impulsionador desse produto turístico, transformando o impacto da prova em valor permanente para o território.

P – Qual é a ambição para o futuro do GP Beiras e Serra da Estrela?
R – A ambição passa por continuar a consolidar a prova e fazê-la crescer de forma sustentável. À medida que evoluímos, estamos também a criar um histórico, uma marca e uma plataforma de promoção associada aos 16 municípios, que queremos projetar para o mundo. Mas um evento desta dimensão só é possível com um envolvimento profundo e articulado de muitas entidades: a equipa da AMCB, as equipas participantes, os patrocinadores, a Federação Portuguesa de Ciclismo, o Turismo do Centro, o Turismo de Portugal, as forças de segurança, médicos, enfermeiros, bombeiros, imprensa, estruturas logísticas, equipas técnicas, staff dos municípios e todos os que, muitas vezes de forma menos visível, garantem que a prova acontece. Só quem está verdadeiramente envolvido percebe a complexidade de organizar um evento desta natureza. Cada pessoa conta, cada detalhe pesa e cada município dá o seu melhor para receber a prova, os atletas, os visitantes e projetar este território para o país e para o mundo. Hoje já somos uma prova internacional UCI 2.1, o que representa um nível organizativo e competitivo muito elevado. Existe motivação para continuar a crescer e subir de categoria, mas isso exige mais capacidade financeira, logística, institucional e empresarial. E é para isso que continuamos a trabalhar.

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