Cara a Cara

«Na Guarda ainda existe um número enorme de jovens que não está minimamente preocupado com as alterações climáticas»

Escrito por Jornal O Interior

Rafaela Aleixo

P – Ficou satisfeita com a participação dos estudantes da Guarda na manifestação da greve climática?
R – Não posso dizer que fiquei totalmente satisfeita, quando a maioria dos estudantes era do 1° ciclo, que vieram com o grande esforço realizado pelas professoras e pela comunidade educativa do Agrupamento de Escolas de Afonso de Albuquerque. Neste mesmo dia, na parte da manhã, a Secundária da Sé organizou uma caminhada, inserida no Dia Mundial da Caminhada, o que nos fez, se calhar, perder alguma adesão, ainda assim aliaram-se a nós pedindo a utilização de uma “t-shirt” branca durante o evento. Quanto às escolas privadas sabemos também que ainda não aderem muito bem a esta iniciativa. Apesar disso, acho que os estudantes mais velhos que se juntaram são pessoas com a capacidade de entender a emergência deste assunto e fiquei contente por saber que mesmo assim ainda existem bastantes na nossa cidade.

P – O que faltou para que fossem mais?
R – Honestamente, acho que o que falta é o ganho de consciência sobre a grandeza desta problemática. Na Guarda ainda existe um número enorme de jovens que não está minimamente preocupado. Acho que isso só pode ser corrigido com a procura de informação sobre estas temáticas, a participação em muitas das nossas atividades e outras relacionadas, a inserção deste tema de forma mais ativa na sociedade (nos estabelecimentos de ensino e nos vários espaços públicos) e a tomada de medidas mais significativas tanto pelo setor público, como pelo privado, que demonstrem o interesse social que advém da temática do clima, do ambiente e das alterações climáticas.

P – Acha que os jovens “acordaram” a tempo para o problema das alterações climáticas e que podem contribuir para a mudança?
R – Para além de termos acordado a tempo, acordámos em massa, o que é fundamental. Penso que se não pensássemos que poderíamos contribuir para a mudança não estaríamos a mexer-nos da forma que estamos. Isto porque já não somos milhares, somos milhões e estamos a conseguir passar a mensagem de que é necessário fazer algo, de que as coisas não estão bem da maneira como estão, que arrastar esta crise é perder a humanidade. Os jovens acordaram numa altura em que ainda há esperança. Por isso queremos ação e temos vontade de construir na sociedade um novo paradigma baseado na Justiça Climática, que é o nosso grande mote.

P – E os mais velhos? O que é preciso para os envolver mais na defesa do ambiente?
R – Nós, jovens, precisamos que nos apoiem, que nos ouçam, que se estamos errados nos corrijam e não nos critiquem nem nos julguem com más interpretações. É preciso que eles percebam que não estamos a brincar, que estamos informados, que temos um motivo para escolher as palavras que escolhemos. É necessário que parem já de sobrepor os interesses económicos aos interesses sociais, de uma vida digna na Terra. É necessário que parem de pensar que a riqueza se define apenas por dinheiro. Precisam de aprender a usar o poder e deixem-nos ajudar nisso. É necessário que entendamos que a Natureza e o ambiente têm uma forte componente ligada ao ser humano e estamos a quebrá-la aos poucos. Precisamos de resolver esta confusão com uma enorme urgência.

P – Sinteticamente, que medidas devem ser implementadas em Portugal para reduzir as emissões poluentes?
R – Reflorestação da área ardida com espécies autóctones, como medida mais urgente, porque é esta que vai permitir um maior sequestro do carbono, povoamento e vigilância das áreas com maior suscetibilidade a incêndios florestais, de forma a prevenir outros desastres. Encerramento das centrais termoelétricas, proibição da exploração de combustíveis fósseis no país, das minas a céu aberto (caso do lítio), que podem vir a destruir uma vasta biodiversidade e fazer danos irremediáveis. Enorme investimento nos transportes públicos, na eletrificação da rede de transportes por todo o país, nas energias renováveis e na eficiência energética. Defendemos também o cancelamento de projetos que sejam emissores massivos de GEE, reformas na agricultura para que não seja intensiva, mas sim sustentável, biológica, inteligente e eficiente e se adeque às condições de água, solo, temperatura que possui, com reduzidas quantidades de químicos. Por fim, sugerimos a passagem para uma economia circular.

P – Têm mais iniciativas programadas para os próximos tempos? Quais?
R – Há uma possibilidade de fazermos mais recolhas de lixo, sessões de cinema, aulas de yoga, meditação, tertúlias, já pensámos nisso tudo, só falta mesmo pôr em prática. E estamos confiantes de que, pelo menos, algumas destas atividades vamos organizar. Também já estamos a pensar no próximo ano, pois o nosso movimento está inserido numa onda de ações intitulada “By2020WeRiseUp”, que irá intensificar ainda mais a nossa luta por Justiça Climática.

Perfil de Rafaela Aleixo:

Porta-voz na Guarda do Movimento Greve Climática Estudantil

Idade: 17 anos

Naturalidade: Guarda

Profissão: estudante

Currículo: Movimento Greve Climática Estudantil, organizadora de uma sessão de CineClima, de duas recolhas de lixo, duas greves climáticas e uma vigília; Oradora na manifestação contra a mineralização do lítio na Serra da Estrela e na sessão de abertura do ano letivo 2019, pelo município da Guarda; Atleta no Centro de Atletismo de Seia; Campeã nacional com duas internacionalizações; Presidente do departamento desportivo na Associação de Estudantes da Escola Secundária da Sé.

Livro preferido: “Werther”, de J. W. Goethe

Filme preferido: “Fight Club”, “Forrest Gump”

Hobbies: praticar atletismo, ouvir música, ler livros, notícias, artigos, ver filmes, séries, reportagens, documentários.

Sobre o autor

Jornal O Interior

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