Cara a Cara

«A nossa formação é das melhores do mundo, mas depois não há público para corresponder aos músicos que se formam»

Escrito por Jornal O Interior

João Amaro

P- Atuou recentemente em Pinhel, num concerto para uma plateia repleta de gente. Qual a sensação de tocar num concerto na sua região, após estes anos a estudar música na Holanda?
R –É sempre muito bom. Foi a primeira vez que toquei música clássica no âmbito profissional no distrito da Guarda e foi ótimo. Tive a oportunidade de atuar não só para a população, mas de partilhar o que aprendi com os meus amigos e familiares que talvez nunca tenham tido oportunidade de me ver tocar de forma mais séria. Escolhi um programa que não corresponde exatamente ao reportório que desenvolvi no meu percurso profissional, mas que penso que apelava mais ao público em geral. Foi uma excelente receção – da qual não estava à espera – e não podia ter tido melhor forma de regressar ao nosso país.

P- Porque razão escolheu a Holanda para prosseguir os seus estudos musicais?
R – As condições que oferecem as faculdades holandesas não têm comparação com as que temos em Portugal. No caso da música clássica, a escolha do local onde queremos estudar é feita de acordo com os professores que lá lecionam. Na Holanda havia três professores de referência mundial e, por isso, tentei a minha sorte nas provas de admissão. Consegui ser aprovado e entrei no Prince Claus Conservatoire em 2017, onde estudei com a Sabrina Vlaskalic. Era uma guitarrista que estava a iniciar a sua carreira a nível mundial, muito pró-ativa, e eu decidi que queria entrar no barco com ela, ao invés de ter aulas com um professor em fim de carreira. Infelizmente ela faleceu no início deste ano, mas tive a oportunidade de conhecer 99 por cento da “fina nata” da guitarra clássica mundial graças a ela. Ao sair de Portugal tive acesso a estas oportunidades que aqui seriam impossíveis de alcançar.

P- Qual a sua opinião acerca da cultura musical da região? Acha que é suficientemente valorizada?
R- Não, de todo. Mas essa questão é nacional e não apenas regional. Não há cultura de ouvir música clássica em Portugal da mesma forma que há nos países da Europa do Norte. Aí este género faz parte da tradição musical deles. Arrisco dizer que a nossa formação é das melhores do mundo, mas depois não há público para corresponder aos músicos que se formam. Apesar de existir algum investimento na área, ele é ainda muito escasso. Sinto que há necessidade de abolir toda a etiqueta associada a um espetáculo de música clássica para que esta seja apreciada em maior escala. Um povo que sabe apreciar arte é um povo inteligente e com educação, o que acaba por se refletir em tudo o resto.

P – Acha que a quantidade de espaços destinados à cultura na região tem influência na forma como a música é recebida pelo público? Serão escassos ou suficientes?
R- Eu acho que espaços temos muitos, não temos é público. Apesar de haver várias escolas e academias de música na região, as iniciativas que são feitas acabam por não ter grande adesão da população. Mas isso não deve ser um entrave. As iniciativas devem continuar, pois a sua aceitação é um processo longo e demorado. No caso da Guarda, em particular, existiu uma grande cultura musical no passado que se foi perdendo, pois as pessoas saem de cá. Querem trabalhar e, não havendo público, são obrigadas a procurar outros centros que lhes permitam desenvolver a sua arte. Apesar disso, espero que se continue a desenvolver eventos e as iniciativas não deixem de existir.

P – Tendo regressado da Holanda e concluído os estudos consideraria fixar-se na Guarda (ou região)?
R- Voltei há cerca de três semanas por isso ainda estou na fase de explorar as opções que tenho. Infelizmente, para dar aulas em Portugal a minha formação não chega. Por lei é necessário ter um mestrado em Educação, algo que eu sou fortemente contra. É uma formação focada na pedagogia e que não beneficia quem pretende construir uma carreira na música, pois o ensino nesta área é algo muito específico e pessoal. Por outro lado, não é possível viver só de concertos no nosso país. No caso da guitarra clássica a situação agrava-se ainda mais, pois é um instrumento de ambiente muito “fechado” – daí a necessidade de enveredar pelo ensino, para poder colmatar essa situação. Gostava muito de ficar em Portugal, onde sou muito feliz, mas tenho de explorar bem as condições que tenho para o fazer.

Perfil de João Amaro:

Guitarrista Clássico

Idade: 27 anos

Naturalidade: Guarda

Profissão: Músico profissional

Currículo: Estudou na Escola Profissional de Artes da Beira Interior, concluiu o ensino profissional na Escola Metropolitana, em Lisboa. Licenciado em guitarra clássica pela Escola Superior de Música de Lisboa e Mestre em performance pelo Prince Claus Conservatoire, (Groningen, Holanda). Paralelamente foi professor de guitarra na cidade holandesa onde estudou, na Academia de Música da Banda da Covilhã e também na Graça, em Lisboa.

Livro preferido: “À Espera de Godot”, de Samuel Beckett

Filme preferido: “La Grande Bellezza”, de Paolo Sorrentino 

Hobbies: Ir a concertos de música

Sobre o autor

Jornal O Interior

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