Opinião de António Ferreira: Os gémeos

Escrito por António Ferreira

Um na América do Norte, outro na América do Sul. Cada um deles cumpriu um mandato presidencial e foi derrotado na reeleição, o que é raro, pelo menos no norte. Nenhum aceitou a derrota e tentaram ambos um golpe de estado para ficar no poder. Bolsonaro cumpre castigo; Trump foi salvo de um “impeachment” pelo Partido Republicano, mais interessado em manter o poder do que em fazer justiça. Ambos se proclamam inocentes e Trump abusou das prerrogativas presidenciais para perdoar a multidão que assaltou o Capitólio numa tentativa de evitar a validação das eleições em que perdeu. Bolsonaro espera que o filho ganhe estas eleições para receber o perdão presidencial e evitar o cumprimento da pena a que foi condenado. Espera também, talvez, voltar à presidência por esse interposto filho.
Nenhum deles acredita nas alterações climáticas, não porque tenha melhor ciência mas porque lhes convém a exploração de petróleo no Alaska ou nas bacias de Santos e de Campos. Nenhum quer energias de fontes renováveis e Trump legisla ativamente para cancelar as iniciativas em curso. Bolsonaro, por sua vez, acredita que a floresta amazónica deve ser desmatada e convertida em terrenos agrícolas ou pastagens.
Nenhum acredita na ciência ou na cultura. Ambos reduziram o financiamento às universidades e Trump procurou ativamente interferir na sua gestão e nos seus códigos de valores. Ambos promoveram curas de banha da cobra no tempo da pandemia e são responsáveis ambos por centenas de milhares de mortes evitáveis. Trump propôs injeções de lixívia e Bolsonaro (e Trump) a hidroxicloroquina. Esta, vá lá, tinha a vantagem de ser inócua, pelo menos para o fim a que eles a destinavam.
São ambos corruptos e ambos ganharam dinheiro com a presidência; ambos são apoiados por corruptos e ambos legislaram e legislam em benefício de quem os corrompe. Têm os dois como estratégia eleitoral a divulgação de mentiras sobre os adversários políticos e a apresentação de promessas impossíveis de satisfazer.
São ambos profundamente ignorantes e cretinos. Têm a esperteza mecânica de seguir os movimentos que lhes são ordenados por quem os move. Não têm princípios e não entendem os princípios de quem, verdadeiramente, manda neles. Têm por heróis torturadores de mulheres, caso de Bolsonaro, e defensores do esclavagismo, no caso de Trump.
São, afinal, um produto, fabricado por terceiros que ficam na sua sombra, os usam e os oferecem, prontos a consumir, a milhões de seguidores sedentos de soluções fáceis para problemas que não entendem.

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