A sustentabilidade económico-financeira do jornalismo é hoje um dos temas mais ausente do debate público, apesar da sua importância decisiva para a qualidade da informação e para a saúde democrática. Durante o século XX, os meios de comunicação prosperaram graças à publicidade. No século XXI, com o domínio da internet, esse modelo entrou em colapso.
O paradoxo é evidente: nunca tantas pessoas consumiram tantas notícias, nunca a procura de informação foi tão intensa. E, no entanto, jornais, rádios, televisões e sites acumulam prejuízos. A razão é simples: as grandes plataformas digitais apropriam-se da quase totalidade das receitas geradas pelo consumo de notícias, sem compensar quem produz o conteúdo.
Google, Facebook, Instagram, X, TikTok, LinkedIn ou YouTube tornaram-se as autoestradas digitais por onde circula a informação. Mas quem constrói o conteúdo não recebe nada pela sua circulação. Estima-se que 80% das notícias sejam hoje consumidas através das redes sociais, que capturam toda a receita publicitária associada. Os órgãos de comunicação ficam apenas com os custos.
A Inteligência Artificial agravou o desequilíbrio. Os modelos de IA utilizam milhões de textos jornalísticos para treinar sistemas que concorrem diretamente com o trabalho jornalístico, sem pagar um cêntimo à esmagadora maioria das empresas que produziram essa informação. As poucas que recebem alguma compensação ficam com valores residuais.
Em 2019, a União Europeia aprovou a Diretiva dos Direitos de Autor no Mercado Único Digital para garantir uma remuneração justa pela utilização online de obras jornalísticas. A intenção era correta, mas a execução falhou. Em Portugal, o Decreto-Lei nº 47/2023 seguiu o mesmo caminho: criou o direito, mas não garantiu o seu exercício. O resultado é nulo.
Nos Estados Unidos, o alinhamento político entre as grandes plataformas tecnológicas e a atual administração reduz a probabilidade de uma regulação que limite o seu poder. Sem pressão norte-americana, a Europa fica isolada.
O que está em causa não é apenas a sobrevivência das empresas de comunicação social. É a qualidade da informação, a pluralidade de vozes e a resiliência da democracia. Sem um jornalismo sustentável, o espaço público será dominado por algoritmos, propaganda e interesses opacos. E isso tem um custo que nenhuma sociedade democrática pode ignorar.
* Presidente do Politécnico da Guarda



