Não esperava ver, na minha vida, novas reedições das Guerras Persas. Ou que um dos protagonistas fosse o pato Donald com laranja, como numa versão Disney de Péricles. Nem que o novo Ciro II fosse um filósofo kantiano.
O substituto interino de Khamenei fez um doutoramento sobre Kant e mandou matar milhares de manifestantes que pediam mais liberdade nas ruas de Teerão. Toda a gente sabe que a repressão violenta é uma ideia de razão e um imperativo categórico para a paz perpétua.
Há quem diga que Trump quer o negócio do petróleo, do imobiliário, das bitcoins, que se quer livrar das provas do caso Epstein, mas isso é fruto das habituais má-fé e má-vontade. Ao começar uma guerra, Trump sonha com o Nobel da Paz.
Perguntavam-me outro dia se tinha alguma ideia sobre o destino do mundo. Neste momento não sei para onde vai este mundo, mas começo também a duvidar de onde é que veio.
Não é que me entristeça ver mais um ditador cair. Ou imaginar que um dos maiores patrocinadores do terrorismo internacional possa estar à beira do fim. Mutatis mutandis Pinheiro de Azevedo, não gosto de ser bombardeado. É uma coisa que me chateia.
Mas acima de tudo há outra coisa que me chateia. Se o mundo acabar nos próximos meses com uma aniquilação total, nunca perdoarei a quem me obrigou a beber por palhinhas de papel e a quem teve a ideia de prender as tampas às garrafas de plástico para salvar o planeta.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


