Há sabores que são mais do que doces. São memórias. São lareiras acesas. São mãos enfarinhadas e chá fumegante numa tarde fria da Guarda.
A Bola Parda da Guarda esteve quase em vias de extinção. Durante anos, foi resistindo em cozinhas discretas, graças a quem se recusou a deixar morrer a receita. Felizmente, pouco a pouco, a tradição foi sendo recuperada. Pessoas que guardaram o saber, famílias que mantiveram o ritual e um município que decidiu dar palco a este tesouro gastronómico com o concurso da melhor Bola Parda da Guarda.
Este doce tradicional da região distingue-se pelo uso generoso de azeite, canela e aguardente — uma combinação simples, mas cheia de carácter. Promover a receita tradicional, recuperar saberes ancestrais e dar visibilidade à gastronomia local é, felizmente, uma missão que tem ganho força.
Ao longo do tempo já provámos algumas variações da Bola Parda — da Ludovina à Pastelaria do Intermarché, também merecedoras de um postal. Mas hoje é dia de falar da Bola Parda do Zé Manel.
Encontrámo-la no passado fim de semana na Feira do Fumeiro, em Trancoso, Entre farinheiras e morcelas, lá estava ela, embrulhada num saco papel, onde se lia “Bola Parda da Guarda”, acompanhada por um pequeno texto reflexivo sobre as suas características e a silhueta da Torre dos Ferreiros, na Guarda. Não resistimos.
Já em casa, abrimos o saco. O aspeto era irrepreensível — cor intensa, textura apelativa — mas o que mais se destacou foi o aroma marcante a aguardente. No primeiro momento de prova, pareceu-nos ousada, talvez até excessiva no teor alcoólico. Mas deixámo-la repousar. E foi aí que aconteceu a magia.
Passadas algumas horas, a Bola revelou-se extraordinária. A aguardente suavizou, os sabores harmonizaram-se, a textura mostrou-se equilibrada e o paladar tornou-se redondo e envolvente. A canela impera, o açúcar está no ponto certo, e cada fatia pede… outra fatia. Ideal para acompanhar um chá numa tarde fria — como manda a tradição egitaniense.
A Bola Parda do Zé Manel foi, sem dúvida, uma surpresa na Feira do Fumeiro de Trancoso, que continua já no próximo fim de semana. Se lá forem, procurem-na. Levem uma para casa. Deixem-na respirar. E depois contem-nos tudo.
Porque há tradições que não podem — mesmo — desaparecer.
Por: Patrícia Correia/Luís Baptista-Martins










