Bilhete Postal de Diogo Cabrita: A verdade é de vinagre

Escrito por Diogo Cabrita

Porque não há ambulâncias? Vai atirar 200 para o sistema? Resolve? Não!
A saúde é uma vítima também da regulamentação excessiva das políticas erráticas, dos devaneios do seguidismo europeu. Na década de 90 decidiu-se tramar os taxistas que transportavam doentes às diálises, às consultas externas, levavam alguns caídos na estrada às urgências. Foi elaborada a lei para transporte de doentes que colocou essa função na mão de empresas de viaturas específicas e de corporações de bombeiros. Hoje, há milhares de transportadores de doentes com cursos e formações discutíveis e com cumprimentos de protocolos sinistros e até perigosos. Não são más formações, são inadequados atores que, com frequência, não cumpriram escolaridade mínima. São pessoas que, à luz do ensino de 1953, seriam quase analfabetas, mas agora ficam depositárias de informação universitária, que tomam decisões maiúsculas desde que digam protocolos. Inadequado porque a sabedoria nada tem a ver com rotinas ou protocolos. Tudo se baseia num vácuo de eficiência onde o princípio da segurança, o escalar de assustadoras palavras e ao arrepio do mínimo bom senso, conduzem condutores de tuk tuk a pilotos de avião. Estávamos mais seguros, em alguns casos, com os taxistas.
Impera o medo, o “pode ser perigoso”, o “talvez tenha”, e assim o sistema de transportes se tornou a mais galdéria mama de sacar milhões aos contribuintes.
Mas o povo também cavalgou as mordomias sem critério. Os filhos não levam os pais. As famílias não querem os doentes nos carros e frequentemente nem mesmo em casa. A morte é mais humana entre macas coladas umas às outras do que com a mão na mão, no carinho do domicílio.
Amar não tem competência, mas suja as mãos, dá trabalho, é cansativo quando alguém sofre.
Os acidentados que estão incólumes, de pé a olhar o seu acidente, levam com planos duros e fazem exames mesmo que não tenham qualquer sintoma. A mais ínfima pisadela de um dedo recorrer a uma ambulância. O mais ridículo sinal não pode consulta, mas escolhe urgência.
O povo que adora o “Correio da Manhã”, gritarias e espetáculo, concorre para a sobrecarga nas viaturas específicas. Há pessoas que estão com uma cólica abdominal próxima dos gases de Raul Solnado, mas atiram-se para uma cama ou uma maca. Ninguém espera um dia com um paracetamol ou um saco de água quente. Ninguém controla a sua ferida ridícula no dedinho com um curita, ou levantando a mão. Correm para a responsabilização de terceiros num espaço de saúde. Já vi gente de maca porque ouviu dizer que assim é mais rápido nas triagens. O que importa a existência de recursos limitados se eles se safaram? Que importância tem os outros? Nenhuma! O egoísmo imoral tomou conta da mínima literacia. O povo e a sua utilização ilegítima e exagerada de todos os recursos de saúde, o negócio dos transportes emergentes e de doentes não urgentes, as sucessivas Portarias, como a nº 142-B/2012, de 15 de maio, foram elaborando as estruturas de negócio e as empresas de formação e certificação.
Não há ambulâncias e se o sistema se mantiver, não haverá. A gestão dos problemas à luz dos regulamentadores do tamanho da laranja, da curvatura da banana, do detalhe sistemático contra a experiência e o bom senso torna impossível o orçamento da coisa pública.
A ausência de macas e de médicos tem a ver com a política. Sobretudo deriva da ideologia contra o mérito, contra os prémios, contra o incentivo à prevenção, contra a aposta na literacia em saúde, na permanência de regulamentação excessiva sem qualquer verificação das verdades ditas. Estudos prévios e após decisões devem irritar os políticos atuais. Que vantagens houve em tirar os táxis de muitos dos transportes? Que vantagens houve em oferecer transporte a quase todos? Que vantagens tiramos de despenalização dos abusadores? Que ganhos tivemos em pagar o medíocre o mesmo que o cumpridor eficiente?
A saúde está um caldo de verduras velhas, com batatas passadas, abóbora com bicho, e sal a mais. Não presta! Há inúmeros culpados e sobretudo legislação fracassada!

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Diogo Cabrita

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