A partir de janeiro, poderá deixar de haver jornais à venda nos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança. A VASP, distribuidora de imprensa, informou de forma desabrida que a operação de distribuição de jornais e revistas dá prejuízo nos distritos do interior e, por isso, não poderá continuar a fazê-los chegar ao interior.
A VASP já tinha avisado e em outubro de 2024 foi necessária a intervenção pública depois do corte de distribuição nos concelhos de Vimioso, Freixo de Espada a Cinta, Marvão e Alcoutim. Então, o clamor público levou o governo a intervir e a prometer um plano de apoio alargado aos órgãos de comunicação social: um Plano de Ação para os media com 30 medidas, mas que depois da pompa do anúncio ficou na gaveta.
À interioridade juntou-se pobreza de leitura (somos o país com mais baixa taxa de leitura de jornais da Europa, em 2020 1,2 em cada 10 portugueses diziam ler diariamente um jornal ou uma revista; 6,2 em cada 10 belgas leem diariamente um jornal…), e cada vez são menos: no terceiro trimestre de 2025, o ‘Expresso’ vendeu 29 285 exemplares por semana, em média, o ‘Jornal de Notícias’, 12 522, o ‘Público’, 8406 e ‘O Jogo’, 4270 jornais por edição (todos títulos diários), e as revistas semanais ‘TV 7 Dias’ e ‘Nova Gente’, 25 048 e 22 860 exemplares (dados da APCT). Ou seja, continuamos a ser o país de sempre, onde só as elites leem jornais.
Este é o país que somos. Um país deslumbrado com a Internet, mas que continua a ser de analfabetos, de cidadãos que nunca compraram jornais nem leram um livro. Um país onde a alfabetização cresceu de forma extraordinária (há 25 anos 10% dos portugueses eram analfabetos, hoje a percentagem de jovens licenciados em Portugal aumentou significativamente, com dados de 2022 a apontar para 44,44% dos jovens com menos de 35 anos, com ensino superior completo, superando a média da UE, e com uma tendência de crescimento que já ultrapassou a meta europeia para 2030 em 2021), mas cujo nível cultural continua na idade das cavernas. Onde a sociedade mal preparada e inculta continua pouco preocupada com valores como a democracia, a liberdade, o direito a estar informado ou a pluralidade de opinião.
Primeiro foram as escolas, depois os serviços, mais tarde a saúde, a justiça e, por fim, a própria presença do Estado. A ausência de imprensa é apenas mais um marco neste processo de abandono estrutural, que nenhum discurso político consegue disfarçar. «Não é a Internet que substitui a imprensa, é o Estado que abandonou o país».
Mas há uma outra dimensão do problema, muito mais grave: Portugal tem cerca de 80 concelhos sem jornais e rádios de informação. Ou seja, oito distritos podem deixar de ter acesso à imprensa, mas num terço do país não há jornais ou rádios locais que possam informar, divulgar ou escrutinar a vida pública: o “deserto de notícias” – uma tragédia cultural, social e política. Sem um despertar para o apoio aos jornais e rádios locais, a imprensa regional vai acabar em breve e a informação local ficará refém da propaganda das câmaras, pública e partidária, e das frases no Facebook, das fotografias no Instagram ou dos vídeos no YouTube: uma feira de vaidades que representa não apenas a espuma dos tempos, mas também o vazio e a pobreza de espírito da sociedade. Os extremos, a radicalização e o ódio alimentam-se da ignorância, da ignominia, da falta de informação e da falta escrutínio, que crescem quando não há imprensa livre.
Editorial de Luís Baptista Martins: Uma sociedade sem imprensa
num terço do país não há jornais ou rádios locais que possam informar, divulgar ou escrutinar a vida pública: o “deserto de notícias” – uma tragédia cultural, social e política. Sem um despertar para o apoio aos jornais e rádios locais, a imprensa regional vai acabar em breve e a informação local ficará refém da propaganda das câmaras, pública e partidária, e das frases no Facebook, das fotografias no Instagram ou dos vídeos no YouTube: uma feira de vaidades que representa não apenas a espuma dos tempos, mas também o vazio e a pobreza de espírito da sociedade.


